quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A profecia no Novo Testamento


KNIGHT, George W. A profecia no Novo Testamento. São Paulo: Editora Os puritano, 1998, 33 p.


            Nos últimos cem anos temos assistido, de maneira mais acentuada, as tensões entre continuismo e cessacionismo. Um dos pontos básicos desse conflito repousa na seguinte questão: O dom de profecia esteve circunscrito ao período apostólico ou ainda continua em vigor em nossos dias?

         Opondo-se a católicos, carismáticos, pentecostais, renovados e neopentecostais, o Dr. George Knight III, professor adjunto de Novo Testamento no Seminário Presbiteriano Greenville, advoga que a profecia é um dom revelacional dos dias da igreja primitiva e que cessou depois que a Escritura do Novo Testamento foi escrita.

            Para defender esta ideia, o Dr. George observa que “A primeira referência à profecia no Novo Testamento acha-se registrada em Atos 2:14ss, especificamente nos versículos 17 e 18” (p. 7,8). Nesse texto, o apóstolo Pedro diz que o que fora profetizado por Joel (2.28-32) acabara de se cumprir na vida dos discípulos de Jesus. A partir dessa declaração de Pedro, o autor destaca duas importantes verdades: Primeira, a profecia é uma obra do Espírito Santo sobre a vida de alguém. Segunda, o profeta Joel “prediz e descreve a profecia do Novo Testamento nos termos da profecia do Antigo Testamento” (p. 8).

            Como a profecia no Novo Testamento é descrita da mesma forma que a profecia no Antigo Testamento, o Dr. George busca, na sequência de seu texto, uma definição bíblica para a atividade profética. Apoiando-se em Dt 18.18, que diz: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar”, ele encontra a definição por excelência de profecia: profeta é aquele capacitado para falar as palavras que o próprio Deus lhes dá, ou seja, o profeta é aquele que traz a revelação de Deus.

            George Knight procura confirmar essa definição por meio de textos neotestamentários que descrevem a atividade profética - (At 11:27-28; At 21:10ss; At 13:1-3; I Co 14:29-32; Ef 3:5; 2 Pe 1:21; 1Tm 1:18 e 4:14) – e na sequência aborda, mais detidamente, os textos de I Co 11 ao 14. Da análise desses textos paulinos chega à mesma conclusão: a atividade profética envolve a recepção e a comunicação da revelação divina.

            Apoiando-se em 1 Pe 1.21, onde encontra-se registrado que “[...] nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”, o Dr. George defende a inviolabilidade de sua definição, isto é, a atividade profética é revelacional por natureza.

            Dada a definição de profecia, o Dr. George, no curso de sua obra, passa a considerar se este dom revelacional ainda continua em atividade na atualidade. Para negar a continuidade do dom de profecia em nossos dias, ele se apoia basicamente nos textos de Efésios 2.20, 3.5 e 4.11, embora reconheça que o texto mais importante para o entendimento da cessação da atividade profética na igreja pós-apostólica é Efésios 2.20. A partir desse texto, a autor conclui que as profecias não mais existem porque faziam parte do trabalho de fundação da igreja e que por isso “todas as exortações do Novo Testamento relacionadas à profecia não são mais prescritivas para nós os que vivemos após o período fundacional dos apóstolos e profetas, o qual já cessou” (p. 30).  

            O livro de George Knight, “A profecia no Novo Testamento”, é uma ótima obra para quem deseja entrar em contato com o pensamento cessacionista de forma rápida e objetiva. O problema com o pensamento do autor na defesa de seu cessacionismo, talvez pela brevidade de suas palavras, esta na limitação da função profética a fundação da igreja, se esquecendo, por exemplo, que o Paulo, na mesma carta aos Efésios, também associa a atividade profética a edificação do corpo de Cristo.

            Esse ramo da atividade profética era algo de vital importância para a edificação da igreja primitiva, como podemos verificar em vários textos citados pelo próprio George Knight:  
  •  As profecias proferidas por Ágabo em At 11.27-30 e At 21.10 não estavam revelando o mistério de Cristo nem princípios apostólicos ou proféticos fundamentais para a vida do povo de Deus, mas apenas prevendo eventos futuros da vida da Igreja;  
  • Em At 13.1-3, igualmente, não temos uma revelação profética do mistério de Cristo, mas a atividade profética dirigindo a igreja na escolha de seus missionários.
  • Em 1Co 14.3,4, Paulo destaca claramente o propósito edficacional da profecia: edifica, consola e exorta.
  • Em 1 Co 14.24,25, o apostolo Paulo também observa que a profecia tinha como objetivo revelar os segredos do coração dos incrédulos.
  • Em I Co 14:29-32 a profecia também não tinha uma caráter fundacional, mas edificacional, visto que destinava-se a consolação da igreja;
  • Em 1Tm 1:18; 4:14, o apóstolo Paulo, ao exortar o pastor Timóteo com o claro objetivo de que este desenvolvesse bem o seu ministério, lembra que o mesmo fora objeto de profecias. A profecia neste caso também não parece ter um caráter fundacional.  

            A conclusão a que chegamos é que o Dr. George Knight ao limitar a atividade profética a questão fundacional da igreja, parece não reconhecer que a igreja necessita da atividade profética como um meio para a sua edificação na atualidade. Reconheço que o Dr. George Knight poderia argumentar contra a minha conclusão da seguinte forma: não precisamos de profecias porque já temos a Bíblia, a revelação de Deus por excelência. O problema com esta declaração é que a Bíblia só veio a se tornar acessível à grande massa do povo de Deus a partir do século XVIII. Logo, a história do povo de Deus, pelo menos a sua maior parte, é uma história divorciada da revelação divina.

            Por outro lado, é difícil entender como a atividade profética da nova aliança seria menos intensa do que a atividade profética da antiga, já que os profetas da antiga aliança profetizaram que nos “últimos dias”[*] Deus derramaria do seu Espírito sobre toda a carne e como consequência desse derramar todos profetizariam.

            A despeito dessas observações, como já observado anteriormente, a obra de George Knight é muito útil para uma compreensão rápida e clara do posicionamento do posicionamento cessacionista a respeito das profecias.    


Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.
[*] Essa expressão encontra-se em Atos 2.17 e  é compreendida pelos teólogos como uma referência clara ao período compreendido entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A POLÍTICA, O PASTOR E AS TRINTA MOEDAS DE PRATA.


            Acostumamos-nos a falar sobre política apenas em época de campanha eleitoral fazendo, de certa forma, de nosso discurso nessa área quase que um subproduto do partidarismo de interesses que permeia a alma da política brasileira desde os dias de Cabral até os nossos dias. Nesse sentido, como dizem alguns sociólogos, mesmo contrariando a recomendação paulina de não se deixar modelar pelos padrões mundanos, a igreja é produto do meio em que vive.
            Contrariando essa marca da sociedade brasileira de só refletir sobre política a cada disputa eleitoral, o pastor batista Israel Guerra Filho, ex-deputado pernambucano, declarara, num encontro de pastores, que bom seria que nossa gente pensasse sobre política antes das eleições. Dessa forma, nossos púlpitos não seriam descaracterizados e a igreja ampliaria a sua consciência sobre a realidade política que a envolve.
            Acredito que esta seria uma rica oportunidade para a igreja brasileira. Sem sombra de dúvida, ela iria perceber que a Bíblia tem muito mais a lhe ensinar sobre política do que geralmente pensa; que cada profeta estava muito mais sintonizado com a realidade política do seu povo do que muitos pastores da atualidade e que o próprio Deus se interessa pelas questões políticas do mundo.
            Se uma reflexão sobre política tem bases bíblicas e traria inúmeros benefícios para o povo de Deus na atualidade, devemos levantar o seguinte questionamento: Por que não refletimos sistematicamente sobre este assunto em nossas igrejas? A razão para a ausência de reflexão nesta área me parece fundamentar-se na definição internalizada, às vezes inconscientemente, que temos de político.  Ou seja, embora em sua definição o termo política aponte primariamente para as ideias de ciência e arte, a igreja brasileira parece ter se apropriado de sua definição mais pejorativa: política é jogo e jogo sujo.
            Dirigida por seus líderes para este jogo sujo, a igreja brasileira revela, em grande medida, a sua incapacidade de fazer política num nível mais elevado, isto é, no nível científico e artístico e, em consequência disso, deixa de contribuir para o desenvolvimento de uma nação mais justa. Entretanto, este é um tipo de postura que não só revela a nossa incapacidade de fazer política, mas também o distanciamento dos líderes da igreja brasileira dos valores do reino.
            Nesse sentido, infelizmente, muitos pastores são parecidos com Judas. Contudo, enquanto trocam Jesus e os valores do reino por trinta moedas de prata, se esquecem que este, embora lhes pareça um bom caminho, na verdade é um caminho de morte.  

sábado, 20 de dezembro de 2014

Fora da igreja há salvação?



LIMA, Ezequias Bezerra. Fora da igreja há salvação? Recife: Pax Publicações, 2014, 124 p.

O movimento evangélico brasileiro ao longo dos anos vem sofrendo profundas e significativas modificações. Passamos do tradicionalismo para o pentecostalismo, deste para o neopentecostalismo e, mais recentemente, estamos vendo uma boa parcela de crentes abandonarem à igreja institucional na direção de um Cristianismo sem igreja.

O Dr. Ezequias Bezerra, um pastor e teólogo pernambucano, líder da Igreja Missionária Canaã e presidente do Grupo Maranata de Comunicação, na obra “Fora da igreja há salvação?”, se propõe a apresentar uma interessante reflexão sobre essa nova atmosfera vivida pela igreja brasileira.

A obra está dividida em nove capítulos e, segundo o autor, é fruto de uma mensagem pregada na igreja que pastoreia e tem como objetivo ajudar o leitor em sua caminhada de fé até o céu.

No primeiro capítulo, o autor procura apresentar uma definição de igreja. Fugindo da concepção popular de que, por exemplo, “uma igreja é um lugar onde tem música, orações e um líder religioso falando acerca de Deus utilizando a Bíblia ou suas tradições” (p. 17), o Dr. Ezequias procura conceituar a igreja utilizando imagens bíblicas: “A igreja é o corpo de Cristo, é a sua noiva, é o seu povo, é a sua família, é a sua casa”, (p. 19). É uma comunidade “formada por pessoas salvas em Cristo Jesus” (p.21) e que se reuni em um determinado lugar para cultuar ao Senhor.

Nesse sentido, a igreja pode ser compreendida como uma comunidade visível-invisível, pois, como destaca o autor, não existe uma dimensão sem a outra. Contudo, é a dimensão invisível que determina a visibilidade da igreja.

Dando sequência ao curso de sua argumentação, o Dr. Ezequias Bezerra, no segundo capítulo, desenvolve o seguinte tema: a origem da igreja. Como deixa claro, a igreja tem origem em Cristo Jesus, a pedra de esquina, o fundamento para os apóstolos e profetas. Essa igreja fundada por Cristo, contudo, não tem uma dimensão mística apenas. Ou seja, a igreja não é apenas invisível aos olhos do mundo, mas, como se depreende das Escrituras Sagradas, é também visível.

Desse modo, segundo o autor, a igreja precisa de uma estrutura formal para o desenvolvimento de sua missão; de um local para culto, de líderes para orientar e disciplinar a comunidade e da companhia fraterna dos discípulos de Cristo para que mantenha uma vida saudável.

No terceiro capítulo, Ezequias Bezerra apresenta, com mais detalhes, os símbolos que a Bíblia emprega para representar a igreja. São eles: “Edifício, morada de Deus, assembléia dos santos, reunião de salvos, comunidade de fé, família de Deus, corpo de Cristo, cidade de Deus, lavoura, candelabro, rebanho, comunidade dos santos, Cristãos = réplicas de Cristo, Templo de Deus, noiva do cordeiro e outros mais” (p. 44).

A intenção do autor nessa parte de seu trabalho é demonstrar o caráter comunitário e visível da igreja, bem como a relação que esses símbolos tem com o próprio Cristo.

No próximo capítulo, o Dr Ezequias observa que a igreja é propriedade de Deus. Ou seja, a igreja é o povo que Deus elegeu para si antes da fundação do mundo. Todavia, como destaca o autor, no mundo a igreja manifesta a glória do próprio Deus. Desse modo, o Dr. Ezequias compreende que a igreja tem uma dimensão visível no mundo – o que, infelizmente, “querem” negar os desigrejados -  e que lutar contra essa estrutura é declarar guerra contra o dono da igreja.

O Dr. Ezequias Bezerra, no quinto capítulo, procura responder as seguintes questões: Como se entra na igreja? Como se torna povo de Deus? Embora pareca fazer uma pequena confusão entre regeneração e santificação, o autor, sem rodeios, aponta que a porta de entrada para a igreja é a conversão, ou seja, “uma mudança de mente, uma renovação do pensar, do crer, do agir, do ser” (p. 69), evidenciada por uma série de frutos (p. 71).

No sexto capítulo, a grande questão colocada pelo autor é a seguinte: Precisamos da igreja? Nesse ponto, o Dr. Ezequias Bezerra destaca a importância da igreja institucional, apesar de seus problemas, para a vida cristã, pois, como observa, é a partir da igreja que Deus pastoreia o seu rebanho, desenvolve a sua missão e revela a sua vontade.

Nesse capítulo, Ezequias Bezerra ainda nos leva a entender que as críticas dirigidas à igreja de Crista, não poucas às vezes, carecem de fundamento mais sólido. Isso porque, aquilo que é o objeto da crítica dos desigrejados, de modo geral, não merece o nome de igreja.

Recorrendo a vários textos bíblicos, no sétimo capítulo, o Dr. Ezequias procura demonstrar que a verdadeira igreja é uma comunidade de discípulos que demonstram sua fidelidade a Jesus à medida que amam uns aos outros. De modo prático, esse amor é materialidade por meio do serviço mútuo.

No penúltimo capítulo, Ezequias Bezerra observa que, diferente do que muitos pensam, a igreja não é um lugar de pessoas perfeitas, mas um lugar de pessoas em transformação. Aqueles que desprezam essa característica fundamental da igreja, segundo o autor, acabam se frustrando e, finalmente, abandonado a igreja. O remédio contra essa postura tão comum em nossos dias, na visão de Ezequias Bezerra, está na correta expectativa sobre a igreja, isto é, no entendimento de que a igreja é uma comunidade de pessoas imperfeitas que caminham para a maturidade e que fora da igreja, a semelhança de uma brasa fora do braseiro, a vida cristã tende, invariavelmente, a perder a sua vitalidade.

No último capítulo, a partir da ideia de que a relação entre Deus e o seu povo é uma relação de amor, da imagem bíblica de que a igreja é a noiva de Cristo e que vivi com este uma relação monossomática, o Dr. Ezequias Bezerra conclui a sua obra declarando que fora de Jesus não há salvação, mas, “como Jesus e a igreja são um” (p. 123), logo, fora da igreja também não há salvação.

O livro ainda conta com o apêndice “Não fale sem antes conhecer” e “Deus é organizado”, uma introdução a obra “Não atire pedras... Conhecendo a Igreja por dentro”, que dá sequência aos estudos eclesiológicos do Dr. Ezequias Bezerra.

“Fora da igreja há salvação?” é um material extremamente importante para todo aquele que deseja conhecer mais, a partir de uma cosmovisão bíblica, sobre a relação entre a eclesiologia e a soteriologia. É bem verdade que a obra carece de um melhor embasamento histórico sobre essa relação, principalmente, quanto à origem, natureza e posicionamentos do movimento desigrejado. É preciso, todavia, observar que isso não esvazia o valor da obra, apenas a tornaria mais rica.

Do ponto de vista estrutural, agora sim, a obra apresenta muitos problemas. As orações deveriam ser melhor coordenadas e subordinadas; a ortografia deveria ter passado por um processo de revisão e a coesão de ideias deveria ter sido mais bem trabalhada. A despeito desses problemas, como destacado anteriormente, a obra tem a sua importância e destina-se a todos que desejam compreender um pouco mais a relação entre a igreja e a salvação em Cristo Jesus.        


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Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

INTRODUÇÃO AO CREDO DOS APÓSTOLOS

O credo dos apóstolos é um patrimônio do cristianismo histórico. Infelizmente, muitos cristãos não tem consciência dessa realidade. Pensando em dirimir esse problema, apresentamos o texto abaixo de Humberto Casanova e Jeff Stam, o qual faz uma ótima introdução ao assunto.
 

O uso do Credo Apostólico
É essencial que os crentes entendam a necessidade de confessar a sua fé (Mt 10:32; Rm 10:9). Confessamos a nossa fé no batismo, na Ceia do Senhor, ao testificar aos incrédulos, ao dar bom testemunho na vida pública e privada, e ao recitar o Credo no culto de adoração. Toda confissão pública da fé deve ser feita com sinceridade, e deve vir acompanhada de uma vida de compromisso com os valores do reino de Deus.
Até aqui todos estamos de acordo, mas ocorre que na América Latina algumas igrejas evangélicas não dão muito valor ao Credo Apostólico. Não se interessam em estuda-lo, nem em confessar a sua fé através dele. Esta atitude surge de três erros. Primeiro, as pessoas se enganam ao identificar o Credo com a Igreja Católica Romana, crendo que é um documento inventado por ela. Segundo, como a Igreja Católica Romana tem a prática de conferir autoridade divina a muitos de suas tradições, então, se teme que ela conceda tanta importância ao Credo dos apóstolos, que se lhe estime na mesma altura que a Bíblia. Terceiro, uma boa parte da igreja evangélica carece de consciência histórica. Se existe algum interesse pelo passado, este se concentra no período da Igreja primitiva, a qual se pretende chegar passando por toda a história que media entre nós e a Igreja do livro de Atos.
Esta falta de interesse pode ser superado se considerarmos que ao usar o Credo, o fazemos junto com a Igreja “universal” ao longo de toda a sua história. A Igreja vem usando, quase desde o seu começo, muito antes que existisse o romanismo que teve a sua origem com o papado. Mas, este estudo provará que o Credo não é mais do que um resumo do que a Bíblia ensina. Ainda que não seja errado que uma denominação conceda a um credo caráter de autoridade, com todos os demais cristãos sabemos que somente a Bíblia possui autoridade final e divina. O Credo está subordinado a Palavra de Deus. Então, é importante que os crentes percebam o quanto o Credo provê um maravilhoso recurso para confessar os pontos principais de sua fé.
 
Os nomes do Credo
Por ser a confissão de fé mais popular do Cristianismo, tem-se chamado simplesmente “o Credo”. A palavra Credo é realmente o verbo com o qual começa o Credo Apostólico no latim, o qual declara: Credo in Deum Patrem . No português a mesma oração se repete: Creio em Deus Pai. Assim que o termo Credo significa apenas Creio , ou seja, “eu creio”, eu confesso a minha fé de forma pública (cf. 2 Co 4:13). Daí, um credo que não é outra coisa que uma forma de se confessar as nossas crenças básicas (Mt 10:32; Rm 10:8-10).
É chamado de “Símbolo Apostólico”. Este nome foi dado quando as heresias começaram a minar a Igreja. A palavra Símbolo vem do grego, e significa: “marca distintiva, santo e sinal”. O Símbolo Apostólico se converte numa marca da doutrina apostólica e, portanto, a marca do cristão e da Igreja verdadeira. Rufino (falecido em 410 d.C.) disse que o Credo foi dado como uma marca contra os falsos apóstolos, e acrescenta: “assim, os apóstolos prescreveram esta fórmula como sinal e penhor pelo qual reconhecer quem realmente prega verdadeiramente a Cristo, segundo a regra apostólica.”
Também recebeu o nome de “os doze artigos de fé”. A divisão em 12 artigos obedece à lenda de que cada um dos 12 apóstolos escreveu um artigo. Todavia, é mais apropriado esquecer deste título e dividir o Credo em três partes, segundo a sua ordem trinitária.
Além do mais, lhe é concedido o qualificativo de “Apostólico”. Foi Rufino (cerca de 307-309 d.C.) o primeiro a transmitir por escrito a lenda de que, no dia anterior à partida para pregar a todas as nações, os apóstolos colocaram-se em comum acordo quanto à norma de sua pregação. E foi assim que inspirados pelo Espírito compuseram o Credo. Mas adiante Ambrósio (bispo de Milão, 340-397 d.C.) afirmou que o número de 12 artigos obedece ao número dos apóstolos. Finalmente, no século VI um sermão de Pseudo-Agostinho termina afirmando que a cada apóstolo correspondeu escrever um artigo. Esta lenda deve ser rejeitada. O Credo não é apostólico porque foi escrito pelos apóstolos, mas por ser a sua doutrina.
 
Qual a origem do Credo Apostólico?
As regras de fé ou confissões não são uma novidade inventada pela Igreja Católica Romana, ou no período moderno. Os judeus usavam Deuteronômio 6:4-9 como a sua confissão de fé, e a influência deste credo (que eles chamavam o shema ), reflete claramente no Novo Testamento (cf. Rm 3:30; 1 Co 8:4-6; Gl 3:20; Ef 4:6; 1 Tm 2:5; 3:16; 2 Tm 2:8; 1 Pe 1:21; 3:18,22). O Novo Testamento também nos entrega uma lista de pessoas que confessaram a sua fé: João Batista (Jo 1:29, 34), Natanael (Jo 1:49), os samaritanos (Jo 4:42), os discípulos (Jo 6:14,69; cf. Mt 14:33), Marta (Jo 11:27), Tomé (Jo 20:28). Todavia, a confissão mais conhecida foi a que Pedro formulou quando declarou que Jesus era “ o Cristo, o Filho do Deus vivo ” (Mt 16:16).
Por dois motivos se fez necessário o surgimento do Credo. Primeiro, a expansão missionária da Igreja, fez obrigatório o surgimento de uma declaração de fé básica para instruir aos candidatos ao batismo (Mt 28:19). Segundo, a heresia obrigou a Igreja de definir claramente a sua fé. A expansão da fé cristã colocou a Igreja em contato com muitas culturas e filosofias pagãs que ameaçavam introduzir-se no meio do povo de Deus. Por isto, desde o principio percebeu-se a importância de preservar e confessar o ensinamento dos apóstolos, o que a igreja antiga fez por meio de confissões e credos. O perigo é denunciado claramente em Hb 4:14; 10:23; 1 Jo 2:22-23; 4:1-6,15; 5:1,5 onde se reafirma e exige confessar a fé, ante o confronto com a heresia e/ou a perseguição.
Não sabemos quem ou que pessoas escreveram o Credo Apostólico, mas não há dúvida de que a sua origem remonta a tempos antiqüíssimos. Por exemplo, tão antigo como o ano 107 d.C., Inácio (bispo de Antioquia) expunha a doutrina verdadeira contra a heresia docética (veja mais a frente sobre a forma trinitária do Credo). E para expor a regra de fé da Igreja usou as seguintes palavras:

De maneira que, sejam surdos quando alguém vos fale sem Jesus Cristo,
o qual foi da linhagem de Davi,
de Maria,
quem verdadeiramente nasceu,
comeu como também bebeu,
foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos,
foi verdadeiramente crucificado e morreu tendo por testemunhas os céus, a terra e o que há sob a terra;
quem também verdadeiramente ressuscitou dos mortos, quando o seu Pai o levantou.
Seu Pai, a sua semelhança, a nós os que nele cremos, nos ressuscitará da mesma forma em Cristo Jesus, sem o qual não temos vida verdadeira.”
(Carta aos Tralianos, ix.1-2)

Justino (cerca de 100-165 d.C.) outro mártir antigo, disse em sua Apologia (I.61.10 ss ) que entre os cristãos no batismo se pronuncia “...em nome do Pai do universo e Deus soberano... em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e em nome do Espírito Santo.” Também Irineu (bispo de Lyon, cerca de 175-195 d.C.) disse em sua obra Adversus haereses (I.x.1-2) que:

“A Igreja... recebeu dos apóstolos e seus discípulos
a fé em um Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra...
e em um Espírito Santo, o qual através dos profetas proclamou...
e no nascimento virginal,
a paixão,
e a ressurreição de entre os mortos,
e a ascensão em carne ao céu do amado Cristo Jesus, nosso Senhor,
e seu retorno do céu na glória do Pai, para recapitular toda as coisas em um
e ressuscitar toda a carne de toda a raça humana.”

Estas são amostras de que a linguagem do Credo estava na boca da Igreja desde os tempos antigos. Homens como Irineu (cerca 175-195 d.C.), Tertuliano (cerca 160-215 d.C.) conheceram o Credo, afirmando que procedia do tempo apostólico. Isto é confirmado pelas versões do Credo que podem ser vistos nos escritos de Inácio (morto cerca de 98-115 d.C.), Justino (cerca 100-165 d.C.), Hipólito (cerca 215 d.C.), Cipriano de Cartago (250 d.C.), Novatiano de Roma (250 d.C.), Orígenes (185-254 d.C.) e Agostinho (400 d.C.). O Credo de Nicéia (325 d.C.) nada mais é do que uma elaboração mais detalhada do Credo Apostólico.
O conteúdo do Credo é inspirado diretamente na doutrina apostólica. Uma comparação entre os textos da Escritura demonstrará que a dependência chega a escolher até mesmo as palavras. Que a linguagem do Credo estava na boca da Igreja primitiva é possível perceber claramente pelos textos de Rm 1:3-4; 8:34; 1 Co 15:1-4. De fato, a confissão da Igreja era simplesmente a pregação da Igreja (cf. At 2:22-36; 3:15; 4:10; 5:30-31; 9:20; 10:36,39-40; 17:2-3,31; 18:5,28; 26:23). Por isto, tem suficiente direito de ser chamado Apostólico. Calvino não se preocupava em saber quem era o seu autor. Para ele o importante era que: “o mais importante que devemos saber é que nele se encontra resumida e de modo claro toda a história de nossa fé e que nada contêm nele que não se possa confirmar com sólidos e firmes testemunhos da Escritura” (Institutas, II.xvi.18).
 
O texto do Credo Apostólico
As cópias mais antigas que possuímos são de Rufino (em latim 390 d.C.), e a de Marcelo (em grego, 341 d.C.). Estas duas versões são mais breves que o Credo que conhecemos hoje. Falemos primeiro do texto de Marcelo, que foi o bispo de Ancira (capital da Galácia). Aproximadamente nos anos 337-341 d.C., Marcelo escreveu uma carta ao bispo Júlio I, com o fim de provar-lhe a sua ortodoxia. É com esta finalidade que inclui nela o que é a versão mais antiga do Credo Apostólico. Toda a carta está em grego, sendo que nesse tempo era a língua oficial da igreja. O Credo de Marcelo é claramente trinitário. Todavia, a parte cristológica é muito mais ampla que a referente ao Pai e ao Espírito. A estes três artigos trinitários básicos, Marcelo lhes acrescenta outros. O texto mais breve de Marcelo diz assim:

Creio em Deus todo-poderoso
E em Cristo Jesus, seu único Filho, nosso Senhor,
Concebido pelo Espírito Santo e Maria virgem,
Crucificado sob Pôncio Pilatos, e sepultado,
E ao terceiro dia ressuscitou dos mortos,
Subiu ao céu e está sentado a destra do Pai,
De onde virá para julgar aos vivos e mortos;
E no Espírito Santo,
Una Igreja santa,
O perdão dos pecados,
A ressurreição do corpo,
A vida eterna.”
 
No presente estudo usaremos a versão que é conhecida hoje, e é aceita por toda a Igreja cristã em todo o mundo, e que chamaremos de “Texto Recebido” (650 d.C.). Nas lições usaremos referência a outras versões mais antigas, como as de Marcelo e Rufino. Em sua divisão tradicional de 12 artigos, o Texto Recebido declara:

1. Creio em Deus Pai Todo-poderoso, o Criador dos Céus e da terra.
2. E em Jesus Cristo, o seu único Filho, o nosso Senhor;
3. que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
4. padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
5. desceu aos inferno, e ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos;
6. subiu ao céu e está assentado a direita de Deus Pai Todo-poderoso;
7. dali virá para julgar os vivos e os mortos.
8. Creio no Espírito Santo;
9. na santa Igreja católica, a comunhão dos santos;
10. o perdão dos pecados;
11. a ressurreição do corpo
12. e a vida eterna. Amém.”

A forma Trinitária do Credo
Foi o Concílio de Nicéia (325 d.C.) que formulou uma posição conclusiva do dogma da Trindade. E ainda que o Credo Apostólico não entra na discussão de forma detalhada quanto a cada pessoa da Trindade, confessa a fé em um Deus Trino. O Credo está claramente dividido em três partes: O Pai e a nossa criação, o Filho e a nossa redenção, o Espírito Santo e a nossa santificação. Assim, tem se dividido o seu conteúdo em 12 artigos. Deve ser notado que a parte referida ao Filho é a mais detalhada. A metade de seus 12 artigos está dedicada ao Filho e sua obra da redenção. Tal é a importância de Jesus na teologia cristã como o centro de nossa salvação. A primeira vista, pareceria que a seção que fala do Espírito Santo foi a menos informativa, mas a verdade é que a Igreja é vista em íntima relação com a obra do Espírito.
Desde o tempo apostólico, a Igreja teve que lidar com falsas doutrinas, percebendo que era urgente produzir uma declaração de fé que reprimisse o desenvolvimento das falsas doutrinas, especialmente no que concerne a Santíssima Trindade. Por exemplo, houve um movimento chamado arianismo (cerca 318-381 d.C.), que afirmou que o Filho não era Deus, mas que havia sido criado pelo Pai. Outra seita também pregava que o Filho não era Deus, mas que era uma espécie de emanação procedente da divindade. Assim, criam que todo o mal se encontrava no mundo material, enquanto que tudo o que era bom e belo estava no mundo espiritual. Seguindo esta linha de pensamento, concluíram que o Filho de Deus não poderia fazer-se homem, porque isto lhe exigiria assumir um corpo material mal. Isto os levou a dizer que o Filho teve um corpo que somente parecia ser um corpo físico, mas que na realidade não era (docetismo), e disseram que o Filho possuiu um homem comum chamado Jesus em seu batismo e depois o abandonou antes de sua crucificação. João teve que enfrentar estas idéias (1 Jo 4:1-6,15). Foi por isto que o Credo teve que formular a sua doutrina com base na estrutura trinitária.
Extraído do livro de Humberto Casanova e Jeff Stam, El Credo Apostólico (Grand Rapids, Libros Desafio, 1998), pp. 14-22.

Fonte: www.monergismo.com/textos/credos/introducao_credo_apostolico.htm

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Os cristãos podem comer alimento com sangue e carne sufocada?

Recentemente nos deparamos em nossa congregação com o seguinte questionamento: O crente pode comer sangue? Procurando dar uma resposta consistente e biblicamente fundamentada a esse tipo de questão, apresentamos, logo abaixo, um pequeno artigo do Filipe Luiz C. Machado:

Muitos crentes sinceros se deparam com dificuldades durante a leitura bíblica. Todavia, como dizia o Dr. Martyn Lloyd Jones, "dúvidas não são incompatíveis com a fé". Deveras vezes, todos nós, nos deparamos com versículos e situações da vida onde não encontramos alguma solução imediata para a dúvida.

Dentre todas as incertezas, está aquela que diz respeito a licitude ou não de se comer alimentos com sangue e carne sufocada. Alguns são os versículos que suscitam tal ponto de interrogação:
- "Toda a pessoa que comer algum sangue, aquela pessoa será extirpada do seu povo" (Lv 7.27);
- "Portanto tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum dentre vós comerá sangue, nem o estrangeiro, que peregrine entre vós, comerá sangue" (Lv 17.12);
- "Tão-somente o sangue não comereis; sobre a terra o derramareis como água" (Dt 12.16);
- "Somente esforça-te para que não comas o sangue; pois o sangue é vida; pelo que não comerás a vida com a carne" (Dt 12.23).

Antes de entendermos tal questão, é preciso fazer uma ressalva que, confesso, me deixa intrigado. Permita-me, o leitor, um brevíssimo desabafo.

Comumente os evangélicos cometem o grave pecado de afirmar que a Lei de Deus, isto é, as leis civis do povo de Israel do Antigo Testamento, não são mais válidas para nós - quando, no entanto, Cristo foi cristalino em dizer: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir" (Mt 5.17). Ele mesmo disse que era a Lei e os verdadeiros profetas eram Sua boca: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). Porém, embora tais pessoas digam que a Lei não está mais em vigor (somente porque não conseguem vê-la sendo aplicada), frequentemente fazem proibições aos membros e à igreja usando a própria Lei! Ora, isto é um disparate profundo! Ou a Lei é válida, dentro do correto entendimento, ou não é!

Bem, exposto o que me deixa intrigado (mas sei que não somente a mim), destrinchemos a questão.

O Antigo Testamento trabalha com formas visíveis que expressam realidades invisíveis. Por exemplo, o tabernáculo e o templo eram Cristo prefigurado, a saber, apontavam para o Cristo que viria (Mt 26.61); as leis de separação de animais, sementes e tipos de tecidos (Lv 19.19), ensinavam ao povo que eles deveriam ser separados ao Senhor (Lv 26.12); o ano do jubileu, tempo em que se restituía a terra àqueles que a haviam vendido para pagar dívidas (Lv 25.13), era uma demonstração do perdão dado por Cristo e do amor que une os irmãos (Jo 13.35). Assim, seguindo esta mesma sequência, temos as referências ao não comer sangue.

O primeiro fato que devemos notar é o sangue não ser o mal em si mesmo. O sangue não poderia ser a malignidade por si só, pois se assim fosse, os sacerdotes não seriam instados a aspergir sangue no templo (Lv 7.14) de Deus. Se a substância "sangue" fosse pecaminosa, de modo algum o Senhor a requereria de Seu povo.

O segundo fato é o sangue ser uma figura que indica vida: "Somente esforça-te para que não comas o sangue; pois o sangue é vida; pelo que não comerás a vida com a carne" (Dt 12.23 - grifo meu). Notemos que é uma "figura", algo que remete à vida. Bem sabemos que a vida não está somente no sangue. Uma gota de sangue na estrada não indica que há um ser humano, literal e completo, na partícula. Nosso corpo é formado de muitas "juntas e medulas" (Hb 4.12), "De pele e carne" (Jó 10.11a), "de ossos e nervos" (Jó 10.11b)...

O terceiro fato diz respeito à necessidade, assim como nas leis de separação de sementes e demais coisas, do povo ser instruído a valorizar o sacrifício. Lembremos que o povo de Israel convivia constantemente oferecendo holocaustos (ofertas totalmente queimadas), os sacerdotes degolavam animais (Lv 4.15) e criaturas eram frequentemente oferecidas em sacrifícios ao Senhor.

Assim, Deus havia proibido o comer/beber do sangue, não por uma propriedade intrinsecamente má no sangue, mas, sim, por causa da necessidade do povo aprender a não confundir e se perder na leviandade.

Este fato pode ser provado com os elementos da ceia sob a luz do Novo Testamento (leia 1 Coríntios 11). Nenhum cristão, durante a ceia, crê que os elementos sejam literalmente o sangue de Cristo [1], mas nem por isso é displicente com eles - não se põe a ficar "fazendo bolinha" com o pão ou erguendo o cálice para admirar a textura do vinho contra a luz. Por que assim não se procede? Porque o momento é diferente; mesmo que os elementos sejam os mesmos usados nas casas, para os jantares e confraternizações, naquele momento eles representam algo mais importante. Cuida-se para não banalizar o significado, não o elemento.

Desta forma, quando lemos na Escritura que não dever-se-ia comer sangue, o propósito era ensinar os judeus sobre a necessidade de serem santos (que significa ser separado) ao Senhor, não ingerindo o líquido que o Senhor requeria para apontar o perdão dos pecados em Cristo Jesus (Hb 10).

Portanto, hoje, nós cristãos do Novo Testamento, podemos livremente comer qualquer coisa com sangue (uma carne "mal passada" ou galinha ao molho pardo, por exemplo), pois não mais vivemos nas sombras do que os elementos tipificavam, e sim na luz, às asas do Altíssimo. O sangue, sim, para sempre continuará a significar "vida" (tanto que somos instados a somente o utilizar na ceia, a fim de seguirmos o padrão bíblico), mas não mais como motivo de separação. Pelo sangue de Cristo estamos unidos a Ele, de modo que o sangue, o líquido, não deve ser proibido aos cristãos.

O que dizer, por fim, do versículo, "Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes" (At 15.29; 21.15)? Para entendermos, é preciso analisar o porquê da recomendação apostólica.

No início do capítulo 15 é relatado que, "alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos" (At 15.1). Aqueles cristãos advindos do judaísmo não se conformavam com o fato de não haver mais necessidade de circuncisão física, pois agora ela se dava no coração (Rm 2.29). Havendo, então, esta dificuldade para conciliar a vida de judeus convertidos com gentios convertidos, "Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto" (At 15.16).

Tal assunto não foi facilmente resolvido, de modo que lemos haver ocorrido "grande contenda" (At 15.7) até mesmo entre os apóstolos e anciãos (demais presbíteros reunidos). Pedro se levanta em meio à assembleia e relembra aos irmãos, "que já há muito tempo Deus me elegeu dentre nós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem... dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?" (At 15.7-10). A razão para isso era a referência à Lei, que nos dizeres do escritor de Hebreus: "(Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou)" (Hb 7.19). Os judaizantes estavam tentando persuadir aos convertidos de que a observância da Lei, por si mesma, seria a causa da salvação - e nisto estavam errados.

Com isso em mente e a discussão em pauta, "tomou Tiago a palavra, dizendo: Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome... Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus. Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue" (At 15.13-14, 19-20).

Qual é, pois, a solução para nosso problema? Muito simples. Uma vez que a Igreja de Deus florescia com judeus e gentios vivendo conjuntamente, era necessário estabelecer um padrão, de modo que os judeus não se escandalizassem pela não prática de certos ritos da Lei que haviam cessado em Cristo e, também, de maneira a não levar os gentios (todos os outros povos que não eram judeus) a viverem licenciosamente, como se nada devessem observar.

Este mesmo princípio, a saber, o de não ser escândalo para o próximo, foi aventado pelo apóstolo: "Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize" (1Co 8.13). Ora, uma vez que a Bíblia não pode se contradizer e notro lugar lemos, "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16-17), o entendimento só pode ser um: que o motivo pelo qual os crentes do início do Novo Testamento deveriam se abster de sangue e carne sufocada, não era pela natureza em si dos elementos ou pela forma como ela era obtida, e sim para evitar o escândalo e promover a unidade. Tal qual Paulo estava disposto a nunca mais comer carne (sacrificada a ídolos [veja os versículos anteriores de 1Co 8.13)], caso isto trouxesse consequências na vida dos irmãos mais fracos na fé, bem faremos se de igual modo procedermos.

Que este breve estudo, pela graça e misericórdia de Cristo, o salvador de todos os Filhos de Deus, no qual as cerimônias sangrentas (assim chamadas devido ao sangue) e todas as outras que envolviam prefigurações, foram encerradas e definitivamente substituídas pelo novo Adão, possa, longe de nos levar à devassidão, acima de tudo, nos instar a amar a Deus e ao próximo nos laços fraternais de Jesus.

Louvemos ao Senhor pelo precioso Sangue de Cristo e não temamos o comer e o beber.

"Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). 

Nota:
[1] Esta heresia se chama transubstanciação (católica romana) ou numa hipótese tão ruim quanto, a consubstanciação (luterana). 
Fonte: 2timoteo316.blogspot.com/2013/05/os-cristaos-podem-comer-alimento-com.html+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A IGREJA EVANGÉLICA E O CAMINHO PARA A REFORMA




A Reforma Protestante fora um movimento de renovação da igreja iniciado por Matinho Lutero em 31 de outubro de 1517. Esse movimento fora responsável, em grande medida, por levar a igreja de volta as suas origens neotestamentárias.
No Brasil estamos experimentando, nos últimos anos, um grande interesse por essa experiência vivida pela igreja cristã no século XVI. Inúmeros eventos são realizados para debater a fé reformada. As editoras evangélicas, seguindo esse mesmo ritmo, tem publicado grande quantidade de material de teor reformado.
Isso tudo que tem acontecido Brasil a fora nos leva a pensar na seguinte direção: Há uma necessidade da igreja evangélica brasileira refletir sobre a Reforma Protestante? É importante esse assunto para a realidade vivida pela igreja no Brasil atualmente? A igreja no Brasil precisa experimentar uma reforma?
Tudo que temos presenciado no Brasil no tocante a igreja evangélica, como bem expõe o pastor Renato Vargens no livro “Reforma Agora - o antídoto para a confusão evangélica no Brasil”, não nos deixa dúvida de que precisamos urgentemente de uma reforma. Todavia, se precisamos de uma reforma em nossas igrejas, qual seria o caminho a ser seguido por nossas igrejas para passarmos por tal experiência?
Como toda a reforma fundamenta-se basicamente nos mesmos elementos, acredito que a história vivida por Josias, rei de Judá por volta do 7° século antes de Cristo, nos ajudará a entender o caminho que precisamos trilhar para experimentarmos uma reforma na igreja evangélica brasileira.
O livro de 2º Reis nos conta que Josias tinha oito anos de idade quando começou a reinar sobre Judá. Ele subiu ao trono porque Amom, seu pai, um dos reis mais ímpios de Judá, fora assassinado por seus próprios servos:

Tinha Amom vinte e dois anos de idade quando começou a reinar, e dois anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Mesulemete, filha de Harus, de Jotbá. E fez o que era mau aos olhos do Senhor, como fizera Manassés, seu pai. Porque andou em todo o caminho em que andara seu pai; e serviu os ídolos, a que seu pai tinha servido, e se inclinou diante deles. Assim deixou ao Senhor Deus de seus pais, e não andou no caminho do Senhor. E os servos de Amom conspiraram contra ele, e mataram o rei em sua casa. Porém o povo da terra feriu a todos os que conspiraram contra o rei Amom; e o povo da terra pôs Josias, seu filho, rei em seu lugar. Quanto ao mais dos atos de Amom, que fez, porventura não está escrito no livro das crônicas dos reis de Judá? E o sepultaram na sua sepultura, no jardim de Uzá; e Josias, seu filho, reinou em seu lugari.

Diferente de seu pai, Josias fora um homem piedoso, o que nos leva a pensar que a sua mãe, Jedida, tenha exercido uma importante influência na formação de seu caráter. A sua piedade parece manifestar-se claramente na sua atitude para com o templo de Jerusalém:
 
Sucedeu que, no ano décimo oitavo do rei Josias, o rei mandou ao escrivão Safã, filho de Azalias, filho de Mesulão, à casa do Senhor, dizendo: Sobe a Hilquias, o sumo sacerdote, para que tome o dinheiro que se trouxe à casa do Senhor, o qual os guardas do umbral da porta ajuntaram do povo, E que o dêem na mão dos que têm cargo da obra, e estão encarregados da casa do Senhor; para que o dêem àqueles que fazem a obra que há na casa do Senhor, para repararem as fendas da casa; Aos carpinteiros, aos edificadores e aos pedreiros; e para comprar madeira e pedras lavradas, para repararem a casa. Porém não se pediu conta do dinheiro que se lhes entregara nas suas mãos, porquanto procediam com fidelidadeii.

Essa reforma na estrutura do templo, levou o sumo sacerdote Hilquias a encontrar, em alguma das dependências da casa do Senhor, o livro da lei que se havia perdido; uma provável cópia dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento ou, no mínimo, do livro de Deuteronômio.
Hilquias, o sumo sacerdote, entregou o livro da lei ao escrivão Safã e este o leu diante do rei Josias. Os versos que seguem retratam a atitude do rei diante da leitura do livro: 
   
Sucedeu, pois, que, ouvindo o rei as palavras do livro da lei, rasgou as suas vestes. E o rei mandou a Hilquias, o sacerdote, a Aicão, filho de Safã, a Acbor, filho de Micaías, a Safã o escrivão e a Asaías, o servo do rei, dizendo: Ide, e consultai o Senhor por mim, pelo povo e por todo o Judá, acerca das palavras deste livro que se achou; porque grande é o furor do Senhor, que se acendeu contra nós; porquanto nossos pais não deram ouvidos às palavras deste livro, para fazerem conforme tudo quanto acerca de nós está escritoiii.

Nessas palavras do rei Josias está registrado o reconhecimento de que o reino de Judá estava precisando experimentar uma reforma. Mas, sobretudo, é nesse evento de confronto com a lei de Deus vivenciado pelo rei Josias, como se pode observar na sequência desse registro histórico, que se dá o desencadear de um processo de reforma espiritual no reino do sul.
Podemos destacar dessa história vivida pelo povo de Deus na antiga aliança alguns importantes elementos inerentes a todo o processo de reforma espiritual tão necessário a vida da igreja evangélica brasileira.       

1. Toda reforma começa com a Escritura.

A palavra de Deus é fundamento para toda e qualquer reforma espiritual na vida de seu povo. A razão para isso pode ser demonstrada com muita clareza por meio de diversas passagens da Escritura, como as destacadas nos exemplos abaixo:

  • A Escritura é perfeita, restaura a alma e dá entendimento aos simples: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices” (Salmo 19:7);
  • A Escritura ilumina a nossa caminhada nesse mundo: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmo 119:105).
  • A Escritura santifica a vida do povo de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17).
  • A Escritura é o instrumento pelo qual o homem de Deus deve moldar a sua vida: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:16-17).
  • A Escritura é o meio pelo qual Deus gera a vida que Cristo Jesus conquistou na cruz do Calvário: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. (Tiago 1:18).
  • A Escritura é como o espelho que denuncia os nossos pecados: “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era” (Tiago 1:22-24)

É por essas e tantas outras razões que o rei Josias, diante das Escrituras, reconhece a necessidade de uma reforma espiritual em Judá. Reconhece, assim, que o seu povo não precisava apenas restaurar o templo físico, mas também o seu próprio relacionamento com Deus e isso só seria possível por meio de um retorna as Escrituras. Justamente por essa razão, antes de tomar qualquer atitude, Josias convida todo o reino de Judá a ouvir a palavra de Deus:

Então o rei ordenou, e todos os anciãos de Judá e de Jerusalém se reuniram a ele. O rei subiu à casa do Senhor, e com ele todos os homens de Judá, e todos os moradores de Jerusalém, os sacerdotes, os profetas e todo o povo, desde o menor até ao maior; e leu aos ouvidos deles todas as palavras do livro da aliança, que se achou na casa do Senhor. E o rei se pôs em pé junto à coluna, e fez a aliança perante o Senhor, para seguirem o Senhor, e guardarem os seus mandamentos, os seus testemunhos e os seus estatutos, com todo o coração e com toda a alma, confirmando as palavras desta aliança, que estavam escritas naquele livro; e todo o povo apoiou esta aliançaiv.

Após a leitura do livro da lei, tendo o povo, desde o maior até o menor, se submetido à palavra de Deus, o rei Josias iniciou em seu reino uma das mais profundas e significativas reformas da história do reino de Judá:

E o rei mandou ao sumo sacerdote Hilquias, aos sacerdotes da segunda ordem, e aos guardas do umbral da porta, que tirassem do templo do Senhor todos os vasos que se tinham feito para Baal, para o bosque e para todo o exército dos céus e os queimou fora de Jerusalém, nos campos de Cedrom e levou as cinzas deles a Betel. Também destituiu os sacerdotes que os reis de Judá estabeleceram para incensarem sobre os altos nas cidades de Judá e ao redor de Jerusalém, como também os que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, e aos planetas, e a todo o exército dos céus. Também tirou da casa do Senhor o ídolo do bosque levando-o para fora de Jerusalém até ao ribeiro de Cedrom, e o queimou junto ao ribeiro de Cedrom, e o desfez em pó, e lançou o seu pó sobre as sepulturas dos filhos do povo. Também derrubou as casas dos sodomitas que estavam na casa do Senhor, em que as mulheres teciam casinhas para o ídolo do bosque. E a todos os sacerdotes trouxe das cidades de Judá, e profanou os altos em que os sacerdotes queimavam incenso, desde Geba até Berseba; e derrubou os altos que estavam às portas, junto à entrada da porta de Josué, o governador da cidade, que estava à esquerda daquele que entrava pela porta da cidade. Mas os sacerdotes dos altos não sacrificavam sobre o altar do Senhor em Jerusalém; porém comiam pães ázimos no meio de seus irmãos. Também profanou a Tofete, que está no vale dos filhos de Hinom, para que ninguém fizesse passar a seu filho, ou sua filha, pelo fogo a Moloque. Também tirou os cavalos que os reis de Judá tinham dedicado ao sol, à entrada da casa do Senhor, perto da câmara de Natã-Meleque, o camareiro, que estava no recinto; e os carros do sol queimou a fogo. Também o rei derrubou os altares que estavam sobre o terraço do cenáculo de Acaz, os quais os reis de Judá tinham feito, como também o rei derrubou os altares que fizera Manassés nos dois átrios da casa do Senhor; e esmiuçados os tirou dali e lançou o pó deles no ribeiro de Cedrom. O rei profanou também os altos que estavam defronte de Jerusalém, à mão direita do monte de Masite, os quais edificara Salomão, rei de Israel, a Astarote, a abominação dos sidônios, e a Quemós, a abominação dos moabitas, e a Milcom, a abominação dos filhos de Amom. Semelhantemente quebrou as estátuas, cortou os bosques e encheu o seu lugar com ossos de homens. E também o altar que estava em Betel, e o alto que fez Jeroboão, filho de Nebate, com que tinha feito Israel pecar, esse altar derrubou juntamente com o alto; queimando o alto, em pó o esmiuçou, e queimou o ídolo do bosque. E, virando-se Josias, viu as sepulturas que estavam ali no monte; e mandou tirar os ossos das sepulturas, e os queimou sobre aquele altar, e assim o profanou, conforme a palavra do Senhor, que profetizara o homem de Deus, quando anunciou estas palavras. Então disse: Que é este monumento que vejo? E os homens da cidade lhe disseram: É a sepultura do homem de Deus que veio de Judá, e anunciou estas coisas que fizeste contra este altar de Betel. E disse: Deixai-o estar; ninguém mexa nos seus ossos. Assim deixaram estar os seus ossos com os ossos do profeta que viera de Samaria. Demais disto também Josias tirou todas as casas dos altos que havia nas cidades de Samaria, e que os reis de Israel tinham feito para provocarem à ira o Senhor; e lhes fez conforme todos os atos que tinha feito em Betel. E sacrificou todos os sacerdotes dos altos, que havia ali, sobre os altares, e queimou ossos humanos sobre eles; depois voltou a Jerusalémv.

 É interessante observamos que, assim como a reforma empreendida por Josias no 7º século antes de Cristo, a Reforma Protestante do século XVI também teve como ponto de partida a Escritura Sagrada. A Bíblia encontrada pelo padre agostiniano Matinho Lutero, perdida em meio ao tradicionalismo da igreja romana, fora resgatada e posta no centro da vida do povo de Deus, como bem retrata o slogan reformado Sala Scriptura. Isso levou a igreja medieval a experimentar profundas e significativas transformações em sua estrutura e a reconduzir a sua trajetória de vida.
Muitos, como o já citado pastor Renato Vargens, afirmam que a igreja brasileira necessidade de uma reforma urgente. Se essa é uma declaração verdadeira, como acredito que seja, devemos nos questionar: Como poderemos experimentar uma reforma? A experiência de Josias, Lutero e tantos outros não nos deixam dúvidas de que o caminho para a igreja brasileira passar por uma reforma começa com uma inteira submissão a Escritura, visto que nele está a vontade de Deus para o seu povo.

2. Toda reforma necessita de arrependimento.

Se a Escritura é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma reforma, o segundo deve ser o arrependimento, isso porque a Escritura, como uma espécie de mapa nos mostra o quanto estamos distantes dos caminhos do Senhor e exige de cada crente uma mudança de vida. Nesse sentido, podemos descrever o arrependimento como o resultado de uma vida impactada pelo poder da verdade.

A reforma desencadeada por Josias tem essa marca do arrependimento. O relato do livro dos Reis nos informa que ele ao ouvir a leitura do livro da lei e perceber que o seu reino estava distante dos caminhos do Senhor rasgou as suas vestes; uma atitude que, nesse contexto, apontava para um coração quebrantado e arrependido diante de Deus.

Essa ideia é confirmada pela resposta que o próprio Deus traz ao rei Josias por intermédio da profetiza Hulda, conforme destacamos no texto abaixo:

Porém ao rei de Judá, que vos enviou a consultar o SENHOR, assim lhe direis: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel, acerca das palavras que ouviste: Porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante o SENHOR, quando ouviste o que falei contra este lugar e contra os seus moradores, que seriam para assolação e para maldição, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o SENHOR. Pelo que, eis que eu te reunirei a teus pais, e tu serás recolhido em paz à tua sepultura, e os teus olhos não verão todo o mal que hei de trazer sobre este lugar. Então, levaram eles ao rei esta respostavi.

Hoje, certamente, a igreja brasileira não precisa rasgar as suas vestes. Todavia, se a mesma deseja trilhar o caminho da reforma, não pode deixar de olhar para Escritura reconhecendo os seus pecados e rasgando o seu coração diante de Deus em sinal de tristeza e arrependimento.

3. Toda reforma exige coragem.

Iniciamos a nossa reflexão destacando que muito se tem falado sobre a necessidade de uma reforma na igreja evangélica brasileira de nossos dias; o que pode levar alguns a pensar que reformar a igreja é algo relativamente fácil. Aqueles, todavia, que venham a encarar a reforma sob essa perspectiva, lamentavelmente, ainda não compreenderam o real significado de uma reforma.
Reformar a igreja não é algo simples; é lutar contra o pecado estruturado na vida da igreja e da sociedade; é embrenhar-se numa luta renhida contra o diabo e o reino das trevas para libertar pessoas e sistemas do poder e influência do deus deste século. Nesse sentido, uma verdadeira reforma só pode ser entendida como uma ação de Deus.
A história, contudo, nos revela que Deus sempre que realizou uma reforma utilizou-se de homens que não se atemorizaram diante dos grandes desafios que a reforma exigia. Esse, por exemplo, fora o caso de Lutero, Zuínglio, Calvino e de tantos outros homens que Deus levantou no século XVI para lutar contra as estruturas pecaminosas da igreja romana e também fora o caso de Josias na reforma que realizou no reino de Judá no século VII a.C..
Josias, especificamente, como muita coragem, teve que enfrentar as estruturas corrompidas de sua época para retirar do templo objetos do culto a Baal; destituir sacerdotes que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, aos planetas, e a todo o exército dos céus; retirar da casa do Senhor o ídolo do bosque; expulsar os sodomitas do templo; impedir sacrifícios humanos, destruir altares e até mesmo condenar pessoas a morte.
Com muita clareza, isso nos ensina que uma reforma na igreja brasileira não é algo que ocorrerá como um truque de mágica, mas algo que se desencadeará quando homens e mulheres, submissos a palavras de Deus e arrependidos de seus pecados, decidirem lutar contra as estruturas pecaminosas que se instalaram na vida da igreja e da sociedade.

Conclusão
Concluo essa reflexão observando que aquilo que chamamos de reforma é o apelido do avivamento. No Brasil, infelizmente, a palavra avivamento ganhou, para não poucas as denominações, a conotação de um evento organizado pela igreja; um culto “especial” onde há, geralmente, muito barulho, mas pouca transformação de vidas. Esse, como destacamos, não é o caminho para que a igreja evangélica brasileira venha a experimentar – usando agora a nossa nova terminologia – um verdadeiro avivamento. Qual seria, então, o caminho? A velha estrata trilhada pelo rei Josias, Lutero, Zuínglio, Calvino e tantos outros homens que Deus levantou para trazer vitalidade para a sua igreja; um caminho de submissão a sua vontande, arrependimento e coragem. 
___________ 
i 2 Reis 21:19-26.
ii 2 Reis 22:3-7.
iii 2 Reis 22:11-13.
iv 2 Reis 23:1-3.
v 2 Reis 23:4-20

vi 2 Reis 22:18-20

Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco
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