quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A profecia no Novo Testamento


KNIGHT, George W. A profecia no Novo Testamento. São Paulo: Editora Os puritano, 1998, 33 p.


            Nos últimos cem anos temos assistido, de maneira mais acentuada, as tensões entre continuismo e cessacionismo. Um dos pontos básicos desse conflito repousa na seguinte questão: O dom de profecia esteve circunscrito ao período apostólico ou ainda continua em vigor em nossos dias?

         Opondo-se a católicos, carismáticos, pentecostais, renovados e neopentecostais, o Dr. George Knight III, professor adjunto de Novo Testamento no Seminário Presbiteriano Greenville, advoga que a profecia é um dom revelacional dos dias da igreja primitiva e que cessou depois que a Escritura do Novo Testamento foi escrita.

            Para defender esta ideia, o Dr. George observa que “A primeira referência à profecia no Novo Testamento acha-se registrada em Atos 2:14ss, especificamente nos versículos 17 e 18” (p. 7,8). Nesse texto, o apóstolo Pedro diz que o que fora profetizado por Joel (2.28-32) acabara de se cumprir na vida dos discípulos de Jesus. A partir dessa declaração de Pedro, o autor destaca duas importantes verdades: Primeira, a profecia é uma obra do Espírito Santo sobre a vida de alguém. Segunda, o profeta Joel “prediz e descreve a profecia do Novo Testamento nos termos da profecia do Antigo Testamento” (p. 8).

            Como a profecia no Novo Testamento é descrita da mesma forma que a profecia no Antigo Testamento, o Dr. George busca, na sequência de seu texto, uma definição bíblica para a atividade profética. Apoiando-se em Dt 18.18, que diz: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar”, ele encontra a definição por excelência de profecia: profeta é aquele capacitado para falar as palavras que o próprio Deus lhes dá, ou seja, o profeta é aquele que traz a revelação de Deus.

            George Knight procura confirmar essa definição por meio de textos neotestamentários que descrevem a atividade profética - (At 11:27-28; At 21:10ss; At 13:1-3; I Co 14:29-32; Ef 3:5; 2 Pe 1:21; 1Tm 1:18 e 4:14) – e na sequência aborda, mais detidamente, os textos de I Co 11 ao 14. Da análise desses textos paulinos chega à mesma conclusão: a atividade profética envolve a recepção e a comunicação da revelação divina.

            Apoiando-se em 1 Pe 1.21, onde encontra-se registrado que “[...] nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”, o Dr. George defende a inviolabilidade de sua definição, isto é, a atividade profética é revelacional por natureza.

            Dada a definição de profecia, o Dr. George, no curso de sua obra, passa a considerar se este dom revelacional ainda continua em atividade na atualidade. Para negar a continuidade do dom de profecia em nossos dias, ele se apoia basicamente nos textos de Efésios 2.20, 3.5 e 4.11, embora reconheça que o texto mais importante para o entendimento da cessação da atividade profética na igreja pós-apostólica é Efésios 2.20. A partir desse texto, a autor conclui que as profecias não mais existem porque faziam parte do trabalho de fundação da igreja e que por isso “todas as exortações do Novo Testamento relacionadas à profecia não são mais prescritivas para nós os que vivemos após o período fundacional dos apóstolos e profetas, o qual já cessou” (p. 30).  

            O livro de George Knight, “A profecia no Novo Testamento”, é uma ótima obra para quem deseja entrar em contato com o pensamento cessacionista de forma rápida e objetiva. O problema com o pensamento do autor na defesa de seu cessacionismo, talvez pela brevidade de suas palavras, esta na limitação da função profética a fundação da igreja, se esquecendo, por exemplo, que o Paulo, na mesma carta aos Efésios, também associa a atividade profética a edificação do corpo de Cristo.

            Esse ramo da atividade profética era algo de vital importância para a edificação da igreja primitiva, como podemos verificar em vários textos citados pelo próprio George Knight:  
  •  As profecias proferidas por Ágabo em At 11.27-30 e At 21.10 não estavam revelando o mistério de Cristo nem princípios apostólicos ou proféticos fundamentais para a vida do povo de Deus, mas apenas prevendo eventos futuros da vida da Igreja;  
  • Em At 13.1-3, igualmente, não temos uma revelação profética do mistério de Cristo, mas a atividade profética dirigindo a igreja na escolha de seus missionários.
  • Em 1Co 14.3,4, Paulo destaca claramente o propósito edficacional da profecia: edifica, consola e exorta.
  • Em 1 Co 14.24,25, o apostolo Paulo também observa que a profecia tinha como objetivo revelar os segredos do coração dos incrédulos.
  • Em I Co 14:29-32 a profecia também não tinha uma caráter fundacional, mas edificacional, visto que destinava-se a consolação da igreja;
  • Em 1Tm 1:18; 4:14, o apóstolo Paulo, ao exortar o pastor Timóteo com o claro objetivo de que este desenvolvesse bem o seu ministério, lembra que o mesmo fora objeto de profecias. A profecia neste caso também não parece ter um caráter fundacional.  

            A conclusão a que chegamos é que o Dr. George Knight ao limitar a atividade profética a questão fundacional da igreja, parece não reconhecer que a igreja necessita da atividade profética como um meio para a sua edificação na atualidade. Reconheço que o Dr. George Knight poderia argumentar contra a minha conclusão da seguinte forma: não precisamos de profecias porque já temos a Bíblia, a revelação de Deus por excelência. O problema com esta declaração é que a Bíblia só veio a se tornar acessível à grande massa do povo de Deus a partir do século XVIII. Logo, a história do povo de Deus, pelo menos a sua maior parte, é uma história divorciada da revelação divina.

            Por outro lado, é difícil entender como a atividade profética da nova aliança seria menos intensa do que a atividade profética da antiga, já que os profetas da antiga aliança profetizaram que nos “últimos dias”[*] Deus derramaria do seu Espírito sobre toda a carne e como consequência desse derramar todos profetizariam.

            A despeito dessas observações, como já observado anteriormente, a obra de George Knight é muito útil para uma compreensão rápida e clara do posicionamento do posicionamento cessacionista a respeito das profecias.    


Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.
[*] Essa expressão encontra-se em Atos 2.17 e  é compreendida pelos teólogos como uma referência clara ao período compreendido entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A POLÍTICA, O PASTOR E AS TRINTA MOEDAS DE PRATA.


            Acostumamos-nos a falar sobre política apenas em época de campanha eleitoral fazendo, de certa forma, de nosso discurso nessa área quase que um subproduto do partidarismo de interesses que permeia a alma da política brasileira desde os dias de Cabral até os nossos dias. Nesse sentido, como dizem alguns sociólogos, mesmo contrariando a recomendação paulina de não se deixar modelar pelos padrões mundanos, a igreja é produto do meio em que vive.
            Contrariando essa marca da sociedade brasileira de só refletir sobre política a cada disputa eleitoral, o pastor batista Israel Guerra Filho, ex-deputado pernambucano, declarara, num encontro de pastores, que bom seria que nossa gente pensasse sobre política antes das eleições. Dessa forma, nossos púlpitos não seriam descaracterizados e a igreja ampliaria a sua consciência sobre a realidade política que a envolve.
            Acredito que esta seria uma rica oportunidade para a igreja brasileira. Sem sombra de dúvida, ela iria perceber que a Bíblia tem muito mais a lhe ensinar sobre política do que geralmente pensa; que cada profeta estava muito mais sintonizado com a realidade política do seu povo do que muitos pastores da atualidade e que o próprio Deus se interessa pelas questões políticas do mundo.
            Se uma reflexão sobre política tem bases bíblicas e traria inúmeros benefícios para o povo de Deus na atualidade, devemos levantar o seguinte questionamento: Por que não refletimos sistematicamente sobre este assunto em nossas igrejas? A razão para a ausência de reflexão nesta área me parece fundamentar-se na definição internalizada, às vezes inconscientemente, que temos de político.  Ou seja, embora em sua definição o termo política aponte primariamente para as ideias de ciência e arte, a igreja brasileira parece ter se apropriado de sua definição mais pejorativa: política é jogo e jogo sujo.
            Dirigida por seus líderes para este jogo sujo, a igreja brasileira revela, em grande medida, a sua incapacidade de fazer política num nível mais elevado, isto é, no nível científico e artístico e, em consequência disso, deixa de contribuir para o desenvolvimento de uma nação mais justa. Entretanto, este é um tipo de postura que não só revela a nossa incapacidade de fazer política, mas também o distanciamento dos líderes da igreja brasileira dos valores do reino.
            Nesse sentido, infelizmente, muitos pastores são parecidos com Judas. Contudo, enquanto trocam Jesus e os valores do reino por trinta moedas de prata, se esquecem que este, embora lhes pareça um bom caminho, na verdade é um caminho de morte.  
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