segunda-feira, 17 de março de 2014

A FORMAÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO


Na última seção, vimos que Deus se revelou ao homem muitas vezes e de várias maneiras. A despeito dessa enorme quantidade e diversidade de formas de revelação entre Deus e o homem, vimos também, que é na Bíblia que se encontra a revelação divina por excelência. Isso nos leva a declarar que é num conjunto de livros que temos o registro definitivo e autorizado sobre Deus [1]. Diante disso, nos vem à mente uma importante questão: Como esse conjunto de textos nascera e viera a receber o status de Escritura Sagrada? O pastor Valtair Miranda, sintetizou esse processo em quatro passos [2]:

1.   A revelação de Deus é dada a alguém. Isso marca o início da relação entre Deus e o homem. Na Bíblia há o registro de um grande número de pessoas que tiveram um encontro pessoal com Deus. Abraão, Isaque, Jacó, José e Moisés são alguns exemplos de pessoas para quem Deus se revelou.
2. A revelação é compartilhada. Aqueles que desfrutaram de uma experiência com Deus passaram a compartilhar as suas experiências, levando, dessa forma, outras pessoas a experimentarem a mesma percepção de Deus que haviam experimentado. A forma como essas experiências eram partilhadas variavam muito. Uns faziam isso por meio de parábolas, outros através de profecias ou mesmo por meio de uma instrução normativa. Esse processo ficou conhecido como inspiração.
3. O registro. As experiências compartilhadas, à medida que formam transmitidas e despertaram novas experiências com o sagrado, ganharam autoridade. Nesse processo, nasceram os livros, isto é, o registro da revelação de Deus ao seu povo. Em alguns casos esse registro era feito pela mesma pessoa que havia recebido a revelação, mas o mais comum era esse registro ser antecedido por um longo período de tradição oral.   
4.   O reconhecimento. Os livros que registravam a revelação de Deus não eram obras quaisquer, mas livros revestidos de autoridade no seio das comunidades do povo de Deus. Isso equivale a dizer que o povo de Deus recebera e reconhecera esses registros como Palavra de Deus. A canonização, dessa forma, nada mais é do que o processo pelo qual os livros reconhecidos são separados dos livros comuns.
Como bem observou o pastor Valtair, “a impressão geral ao acompanhar esse processo é que os livros não ganharam autoridade ao entrar no cânon. Ao contrário, só entraram porque os fieis os reconheceram como tendo autoridade do próprio Deus de Israel” [3].

Essa brilhante observação do pastor Valtair dirige o nosso olhar em duas importantes direções. Primeiro, ela nos faz ver que a revelação de Deus não foi dada de uma única vez. Isso significa dizer que “Nenhum dos autores da Bíblia recebeu toda a revelação” [4]. Segundo, ela nos permite visualizar a porta aberta para um novo debate: Quando e como esse processo foi encerrado? De modo mais específico, quando e como o cânon do Antigo Testamento foi concluído? 

Embora existam muitas especulações sobre esse assunto, a verdade é que não sabemos exatamente quando se deu o fechamento do cânon veterotestamentário. No entanto, quando lemos o Novo Testamento, somos levados a crer que por volta do século primeiro esse já era um assunto praticamente encerrado. Na relação de Jesus com os líderes religiosos daqueles dias, por exemplo, não vemos um debate em torno da extensão da Escritura, o que nos leva a depreender que isso não era um problema. A grande questão entre Jesus e esses líderes, por outro lado, era a forma como eles interpretavam e aplicavam a Palavra de Deus.

Outro exemplo de que já no primeiro século existia um conjunto de livros reconhecidos, tanto pela comunidade judaica quanto pela igreja como Escritura Sagrada, se depreende da forma como a igreja pregou o evangelho para as comunidades Judaicas do primeiro século.

Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio” [5].
                       
Aqui vemos claramente que Paulo usava um conjunto de livros investidos de autoridade para expor a mensagem do evangelho de Cristo Jesus. Esse também era o caso de Apolo, “um judeu, natural de Alexandria, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras” [6] que “com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus” [7].        

Esses exemplos, associados a muitos outros existentes no Novo Testamento, nos revelam, como já citado, que no século primeiro já havia um conjunto de livros reconhecidos como Escritura. Essa, contudo, não é a única informação que podemos extrair da literatura neotestamentária, pois, nas palavras de Jesus, que encontram eco na tradição judaica de seu tempo, temos a oportunidade de dar mais um passo no tratamento dessa importante questão: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” [8].

Nessas palavras de Jesus, não temos apenas o reconhecimento de que existia em seus dias um cânon do Antigo Testamento, mas também a indicação de que esses livros estavam organizados em unidades temáticas: Lei, Profetas e Salmos. Essa estrutura tripartida das Escrituras do povo judeu é também reconhecida pelo grande historiador judeu, do final do primeiro século, Flávio Josefo [9]. 

Isso nos faz pensar que o fechamento do cânon do Antigo Testamento deve ter ocorrido antes do primeiro século. Uma evidência a favor desse posicionamento pode ser extraída do prefácio da tradução, para a língua grega, do livro apócrifo de Eclesiástico datado de 132 a.C [10]. Esse prefácio fora redigido pelo neto do autor de Eclesiástico e traz a seguinte informação: “o que foi expresso originalmente em hebraico não tem exatamente o mesmo sentido quando traduzido para outra língua. Não somente nesta obra, mas até mesmo a lei, as profecias e o restante dos livros diferem bastante do que foi originalmente expresso” [11].    

Esta declaração, além de nos remeter para a existência de uma tradução do Antigo Testamento para a língua grega, nos ajuda, como já citado, a sustentar que o fechamento do cânon hebraico se deu antes do primeiro século, o que, segundo pensamos, parece se ajustar a tradição judaica que defende o desenvolvimento do cânon em três etapas sucessivas, com o fechamento do mesmo em meados do século II a.C.. Segundo esse raciocínio, o processo de canonização da Bíblia hebraica é datado da seguinte forma: “a Tora, por volta do século V a.C; a coleção dos Nevyim [...], no ano 200 a.C.; os Ketuvim ou hagiógrafos, na época dos Macabeus, em meados do século II a.C.” [12].    

O resultado desse processo, ainda segundo essa tradição judaica, seria o seguinte:   
          


Esse quadro nos permite fazer duas importantes observações. A primeira delas é que a estrutura tripartida assim como a própria organização dos livros na Bíblia hebraica difere da estrutura e organização dos mesmos livros no Antigo Testamento cristão. Isto, como veremos, está diretamente relacionado ao caminho feito pelas Escrituras do Judaísmo em direção ao Cristianismo. A segunda observação - essa mais importante para o desenvolvimento da reflexão que estamos fazendo no momento – pode ser feita por meio da seguinte pergunta: Quais os critérios utilizados para o fechamento do cânon da Bíblia hebraica?

Embora estudiosos tenham argumentado contra a legitimidade de alguns desses critérios, é comum encontrarmos nos manuais de teologia os seguintes:


  1. A lingua: os livros do Antigo Testamento encontra-se, em sua grande maioria, escritos em hebraico;
  2. Antiguidade: os escritos deveriam pertencer a um determinado período histórico;
  3. A autoridade profética: a mensagem de cada autor do Antigo Testamento foi recebida como Palavra de Deus;
  4. Ortodoxia: o conteúdo de cada obra deveria esta em harmonia com o todo;  
  5. Canonicidade: a obra deveria desfrutar amplo reconhecimento na comunidade;
  6. Uso tradicional: os livros deveriam fazer parte da vida devocional e doutrinária do povo de Deus;
  7. Inspiração: cada mandamento, cada profecia, cada hino de louvor, embora tenha sido mediado pela ação humana, foi, em última análise, fruto da ação de Deus. 
             
Apesar da contestação de alguns estudiosos, de que falamos anteriormente, não podemos deixar de reconhecer que muitos desses critérios podem ser extraídos da estrutura do Antigo Testamento com relativa facilidade. Portanto, é inteiramente coerente com a literatura bíblica reconhecer que o povo de Deus na antiga aliança usou de critérios para fazer diferença entre livros sagrados e livros comuns e, desse modo, veio a estabelecer o cânon sagrado.      

________________
[1] MIRANDA, Valtair. Fundamentos da Teologia Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 12,13.
[2] Ibidem, p. 13, 14.
[3] Ibidem, p. 28.
[4] Ibidem, p. 14.
[5] Atos 17:1-3,
[6] Atos 18:24.
[7] Atos 18:28.
[8] Lucas 24:44.
[9] SOARES, Esequias. Septuaginta: guia histórico e literário. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 27, 28
[10] Ibidem, p. 30.
[11] BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 43.
[12] SOARES, op. cit., p. 30.

quinta-feira, 13 de março de 2014

A AUTO-REVELAÇÃO DE DEUS.

           
O pastor e filósofo Ariovaldo Ramos, certa vez, ao ser questionado sobre a razão de sua fé, construiu um argumento interessante para demonstrar que a fé é uma possibilidade da razão, pois, como dissera o pastor e teólogo anglicano Jonh Stott, crer é também pensar. O argumento do pastor Ariovaldo Ramos se desenvolve, aproximadamente, da seguinte forma: Deus existe? Se Deus existe e ele não quer se revelar ao homem nada pode ser feito para conhecermos esse Deus. Contudo, se Deus existe e ele quer ser encontrado e se comunicar com a humanidade, estamos diante de outra importante questão: Teria Deus se revelado em todas as culturas da forma que muitos sugerem hoje ou ele teria escolhido um modo específico para se revelar? Ariovaldo conclui optando pela segunda parte da questão, por entender que a Bíblia Sagrada, a principal revelação de Deus, expõe esse padrão [1].    

Essa posição do Pastor Ariovaldo nos leva na direção de mais uma importante pergunta: Como Deus se revelou?  A teologia divide tradicionalmente a revelação de Deus em dois ramos: revelação geral e revelação especial [2]. Segundo os teólogos Justo González e Zaida Pérez, “O que essa distinção indica é que há certo conhecimento de Deus que é derivado da natureza – tanto humana como física – e certo conhecimento de Deus que nos vem por meio da tradição bíblica, e, em particular, por meio de Jesus Cristo” [3].

De acordo com essa definição, concluirmos que a revelação geral de Deus se dirige a todos os seres humanos, enquanto a revelação especial foi limitada por Deus a algumas pessoas. Esse processo pelo qual Deus se revelou aos seres humanos pode ser resumido da seguinte forma:

Revelação Moral

A antropologia secular tem traçado um perfil multifacetado da natureza humana. O filósofo inglês John Locke, por exemplo, compara o homem a uma tabula rasa. Ele emprega essa metáfora para declarar que todo o ser humano nasce desprovido de qualquer conhecimento. Nessa visão, portanto, o homem é descrito como uma espécie de folha em branco onde todo o processo de apreensão do conhecimento se desenvolverá por meio de suas experiências [4].

Diferente de Lucke, o apóstolo Paulo nos ensina que o homem não nasce desprovido de conhecimento, visto que o próprio Deus implantou em seu coração a sua lei e este reconhece essa norma gravada em seu coração, desde a mais tenra idade, quando procede em conformidade com a mesma [5].    

Revelação natural ou física

Há muitos anos o homem vem formulando uma série de teorias sobre a origem do universo. Para Tales de Mileto, considerado um dos primeiros filósofos da escola pré-socrática, o universo teve origem na água, mais precisamente quando esta entrou em movimento e aos poucos foi dando origem a novas vidas e formas [6]. Diferente de Tales, Empédocles, defendia que o universo tem origem na associação de quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Estes elementos seriam, por natureza, imutáveis e indestrutíveis [7].

Mais recentemente, ouvimos muito falar sobre a teoria do Big Bang. Essa teoria, anunciada em 1948 pelo cientista russo naturalizado americano, George Gamow e, o padre e astrônomo belga, George Lemaitre, advoga que o universo surgira por acaso após uma grande explosão cósmica há 10 ou 20 bilhões de anos [8].   

A visão judaico-cristã defende que a origem do universo não advém de forças impessoais, mas sua origem está fundamentada no próprio Deus, que fez tudo surgir do nada, pela força de sua palavra, e tudo muito bom [9]. De modo santo, sábio e poderoso, ainda segundo essa tradição, é esse mesmo Deus quem preserva e governa todas as coisas que criou [10]. O universo, nesse sentido, guarda aquilo que podemos chamar de as impressões digitais do seu Criador. São essas impressões que a teologia chama de revelação natural.

Nos Salmo 19.1-6, encontramos Davi reconhecendo essa revelação divina:   
           
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor”.

É importante deixar claro, como se pode depreender das concepções sobre a origem do universo destacadas anteriormente, que essa revelação divina pode não ser reconhecida pelo homem. O apóstolo Paulo nos leva a entender que essa disposição humana para negar a revelação de Deus, claramente manifesta na natureza e em sua própria consciência, tem suas raízes na natureza pecaminosa que a humanidade herdou de Adão [11]. Assim é inteiramente compreensível para alguém, por exemplo, “observar a natureza e chegar à conclusão de que é uma ordem cruel na qual o mais forte destrói e explora o mais fraco, as criaturas se caçam e comem umas as outras, e a cada dia aparecem novos microorganismos” ou mesmo, agir em completa insensibilidade à lei de Deus revelada em sua consciência [12].

Isso sugere que para compreendermos adequadamente a revelação natural, precisamos de uma chave hermenêutica. Os judeus, desde muito cedo, compreenderam que essa chave para ver Deus de maneira correta na natureza – tanto física quanto humana – encontra-se na história [13].                       

Revelação histórica

Embora a história seja algo comum a todos os homens, nem todos olharam para a história da mesma forma. Os gregos viram na história uma sucessão infinita de ciclos. Desse modo, aquilo que, por exemplo, está acontecendo hoje é apenas uma repetição daquilo que já ocorreu em algum lugar do passado e um ensaio para uma nova apresentação do mesmo evento no futuro próximo ou distante.          Essa visão apresenta a história como desprovida de qualquer sentido ou finalidade e reduz a vida ao plano das realizações individuais [14].

A semelhança dos gregos, os existencialistas ateus da pós-modernidade negam qualquer sentido à história, visto que, segundo compreendem, a história não passa de uma sucessão de eventos desprovidos de significado [15].     

A Bíblia nos convida a olhar para a história de maneira diferente. Não para observá-la como uma sucessão de eventos desconexos e sem sentido ou mesmo um conjunto de sucessivos ciclos, mas como o meio pelo qual Deus materializa os seus propósitos em todas as coisas que criou. Nesse sentido, o entendimento bíblico é que a história humana está se movendo para um fim estabelecido por Deus [16].

Na história de Israel, essa verdade a respeito da revelação de Deus parece se manifestar com mais clareza, como podemos ver através dos seguintes eventos históricos do povo judeu:    
                         
·         Abraão, Isaque, Jacó, José (Gênesis) e Moisés (Exodo 3.1-6).
·         O êxodo (Êxodo 1-19)
·         Sinai (Êxodo 20)
·         As celebrações e festas de Israel
ü  Páscoa (Êxodo 12)
ü  Pentecostes (Levítico 23)
ü  Tabernáculo (Levítico 23.33-36)
·         As renovações da Aliança
ü  Josué (Josué 24.15)
ü  Ezequias (2 Crônicas 29 a 31)
ü  Josias (2 Cronicas 34 e 35)
·         Os feitos heróicos
ü  Elias e os profetas de Baal (1 Reis 18)
ü  Davi e Golias (1 Samuel 17)
ü  Daniel na cova dos leões (Daniel 6)
·         Os profetas

Há, contudo, aqueles que olham para a história da humanidade e chegam à seguinte conclusão: “Se tudo quanto acontece na história é obra de Deus, devemos concluir que Deus apóia os injustos, os abusadores e os exploradores” [17]. Por isso, como argumenta Gonzélez e Pérez, “para ver Deus na história, da mesma forma que para vê-lo na natureza, precisamos de alguma chave que nos diga onde e como temos de ver Deus atuando” [18].  

A igreja cristã tem entendido que a chave para entendemos a revelação de Deus na história se encontra na pessoa de Jesus Cristo [19].  

A revelação Final:

O nosso tempo tem presenciado uma espécie de despertamento do “fenômeno revelacional”, visto que não são poucos aqueles que dizem ter recebido uma nova visão ou revelação de Deus. A despeito da falta de alinhamento dessas supostas revelações com aquilo que temos registrado na Escritura Sagrada, é importante observar que a Bíblia nos ensina com bastante clareza que a revelação de Deus para a humanidade alcança o seu ponto alto na pessoa e obra de Jesus Cristo:            “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” [20].

Essa revelação de Deus na encarnação de Cristo Jesus, como se depreende da leitura de Hebreus, não pode ser vista como mais uma dentre as tantas revelações, mas como a revelação divina por excelência, visto que, ao assumir a natureza, o Filho transpõe todo abismo intransponível entre Deus e o homem [21].   

Nós cristãos, como o próprio Cristo e seus apóstolos nos ensinaram, entendemos que a revelação do Verbo que se fez carne e habitou entre nós também se encontra preservada nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Por isso, fazemos dessas Escrituras a nossa regra de fé e prática [22].

Encerrar esse percurso com a revelação escrita nos mostra algo extremamente importante sobre à auto-revelação divina: Deus não se deu a conhecer de uma única vez, nem de uma única forma, mas fez isso por meio de uma grande variedade de formas e também por meio de um processo que se estendeu por longos anos. Na Bíblia, como vimos, temos a preservação escrita desse processo revelacional. Ela foi redigida por mais ou menos 40 autores, de uma região específica do planeta terra, num período de aproximadamente 1500 anos. Ao estudá-la, precisamos levar em consideração essa característica particular da revelação divina.

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[1] Citado pelo pastor Ed René Kivitz. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=fDegee68f918>. Acesso em 5 Fevereiro 2014. 
[2]GONZÉLEZ, Justo L. & PÉREZ, Zaida M. Introdução à teologia cristã. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 50.
[3] Idem.
[4]FERRARI, Márcio. John Locke. Disponível em <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/john-locke-307434.shtml>. Acesso em: 10 Marco 2014.
[5] Romanos 2.14-15.
[6]FRANCISCO, Lúcio Vieira. Tales de Mileto: Tudo Começa na Água. Disponível em <http://www.brasilescola.com/filosofia/tales-mileto.htm>;. Acesso em 10 Março 2014.
[7] MARTINS, José Alves. Empédocles e as quatro raízes. 
[8] FRANCISCO, Wagner de Cerqueira. Big Bang - A Teoria do Big Bang. 
[9] Pergunta 9. C.f. Catecismo Batista Puritano.
[10]Pergunta 11. C.f.  Catecismo Batista Puritano. 
[11]Romanos 1.18-31.
[12] GONZÉLEZ & PÉREZ, op. cit., p. 51, 52.
[13] Ibidem, p. 52.
[14] HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o futuro. 3ª Edição. São Paulo; Cultura Cristã, p. 34, 35.
[15] Ibidem, p. 35.
[16] Idem.
[17] GONZÉLEZ& PÉREZ, op. cit., p. 55.
[18] Idem.
[19] Ibidem, p. 58.
[20] Hebreus 1.1,2.
[21] GONZÉLEZ & PÉREZ, op. cit., p. 59.
[22] Mateus 22.41-46; Lucas 24.27-44; João 20.30,31; Efésios 2.19-22; 2 Timóteo 3.14-17; 2 Pedro 1.16-21.

sexta-feira, 7 de março de 2014

O QUE É TEOLOGIA?


A teologia durante muitos anos ocupou um lugar de destaque no cenário intelectual, o que permitia que exercesse uma forte influência na sociedade. Podemos observar um exemplo dessa relação entre saber teológico e influência social por meio das primeiras universidades criadas, pois, nitidamente, apresentavam uma estreita ligação entre a igreja, a reflexão teológica e a sociedade. Essa posição de destaque que possuía a teologia, contudo, passou a ser questionada com o advento dos primeiros traços daquilo que ficou conhecido posteriormente como modernidade, de forma que a teologia, no desenrolar desse processo, veio a perder completamente a autoridade que possuía no cenário intelectual e social.             
           
O surgimento da pós-modernidade não conduziu a teologia ao lugar de destaque que antes ocupava, todavia, é importante destacar, que esse novo momento, como havia profetizado alguns pensadores na modernidade, não fechou as portas para a reflexão teológica. O teólogo brasileiro Rubens Alves parece reconhecer essa realidade. Segundo ele, embora a religião [e porque não teologia] não transite mais nos lugares que antes lhe pertenciam, Ela [a religião, e porque não a teologia] permanece e freqüentemente exibe uma vitalidade que se julgava extinta”[1].

Essa observação de Rubens Alves nos faz perceber que a reflexão teológica continua a ocupar um lugar de elevada importância em nossos dias, o que se alinha com uma simples observação da realidade religiosa brasileira. O teólogo católico Clodovis Boff, observando essa realidade, destaca que existe “pelo menos cinco instâncias diferentes que solicitam o estudo da teologia: a fé, o mundo, a vida a época de hoje e a realidade social”[2].

Diante dessa necessidade de fazermos em nossos dias uma reflexão teológica, nos deparamos com uma pergunta introdutória: O que é teologia? Do ponto de vista etimológico a palavra teologia, formada pela junção de duas palavras de origem grega, θεóς + λóγος, significa, literalmente, estudo sobre Deus ou, num sentido mais exato, palavra sobre Deus[3].

Essa palavra fora cunhada originalmente pelos gregos para descrever o discurso que os poetas haviam elaborado sobre os deuses pagãos. Por isso homens como Orfeu e Homero foram chamados de teólogos. A igreja cristã, embora não tenha cunhado o termo teologia, apropriou-se do mesmo ao fazer da teologia a tarefa fundamental da igreja[4]. Dessa forma, podemos encontrar na elaboração teológica da igreja um grande número de definições da palavra teologia. Abaixo destacamos algumas dessas definições:

            “A ciência de Deus segundo ele se revelou em sua Palavra” [5].   

            “A apresentação dos fatos da Escritura, em sua ordem e relação próprias” [6].

            “A interpretação metódica dos conteúdos da fé cristã” [7].

Dogmática é a ciência na qual a igreja, segundo o estado atual do seu conhecimento, expõe o conteúdo da sua mensagem, criticamente, isto é, avaliando-o por meio das  Sagradas Escrituras e guiando-se por seus escritos confessionais” [8].
           
Essas definições nos fazem observar a atividade teológica como algo que possui diferentes ênfases - ciência, método, Escritura, tradição, conteúdo da fé, e assim por diante - e abrangência, o que nos permite conceber, em certo sentido, cada crente como um teólogo. Entretanto, em meio a essas definições, nos deparamos com o importante questionamento: É possível fazer teologia? Ou, noutras palavras, é possível ao homem elaborar um discurso sobre Deus? Tomando como referência o abismo existente entre Deus e o homem, podemos dizer que a atividade teológica é algo impossível ao homem.

Como, então, a teologia se tornou algo possível ao homem? Podemos responder essa pergunta destacando três importantes realidades [6]:

A.      Deus se revelou;
B.      O homem foi criado à imagem de Deus e por isso está habilitado a compreender a revelação de Deus;
C.      O Espírito Santo ilumina a mente humana para que esse venha a entender a revelação especial de Deus.
                     
Sem a auto-revelação de Deus a teologia seria, portanto, algo impossível ao homem. Ou seja, ao homem seria impossível elaborar um discurso sobre Deus. Sem a ação iluminadora do Espírito Santo, certamente, teríamos uma teologia deficiente, incompleta – como vemos entre os pagãos. Disto concluirmos que o discurso teológico elaborado pela igreja não pode ser independente, do tipo eu acho ou eu penso, mas um discurso que “provem” do próprio Deus. É nesse sentido que a igreja em nossos dias é voz profética para a nossa nação. Contudo, quando a igreja abandona a revelação, consequentemente, deixa de falar para o mundo sobre Deus de forma legítima e, como o sal sem sabor, perde a sua funcionalidade.
            
Essa abordagem nos permite chegar a outra importante conclusão: a autoridade de nossa reflexão teológica deve está fundamentada na Bíblia, pois nela temos a auto-revelação de Deus ao homem, o qual deve considerá-la como sua regra de fé e prática por excelência. Muitos demonstram ter um entendimento equivocada sobre o ensino a respeito da autoridade da Escritura, seja por desprezarem a própria Bíblia em detrimento de suas ideias pessoais ou por desprezarem a autoridade dos credos e confissões que nos legaram a tradição da igreja. É importante destacar, especialmente quanto a esse último tipo de atitude, que ter a Bíblia como regra de fé e prática por excelência não é tê-la como única fonte de autoridade, mas como fonte de autoridade suprema para a nossa elaboração teológica onde a própria tradição deve apoiar-se para encontrar legitimidade.
           
     
___________                             
[1] ALVES, Rubem. O que é a religião? Editora Brasiliense, São Paulo, 14ª edição, 1991, p. 9.
[2]BOFF, Clodovis. Conselhos a um jovem teólogo, p.78. Disponível em . Acesso em: 08 Março 2014.
[3] Ibidem, 79.
[4] ROLDAN, Alberto Fernando. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000, p. 23,24.
[5] KEVAN, Ernest. Apud ROLDAN, 2000, p. 24.
[6] HORGE, Charle. Apud ROLDAN, 2000, p. 24.
[7] TILLICH, Paul. Apud ROLDAN, 2000, p. 24.
[8] BARTH, Karl. Apud ROLDAN, 2000, p. 25.
[9] Ibidem, p. 27-30.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Tá tudo errado!


Alma humana, um dos maiores empreendimentos da engenharia divina, ao observar a realidade que aqui se encontra estabelecida, percebe que existe algo de errado com as coisas que a rodeia e em sua própria constituição. Isto é possível, acredito, porque no mais profundo da alma humana existe uma espécie de conhecimento inato, algo como uma radiação cósmica de fundo com origem no próprio Deus, que traz à superfície da existência humana a certeza de que a ordem estabelecida no planeta diverge em grande medida do projeto original.
O sábio Salomão chamou essa capacidade humana de transcender a sua realidade de eternidade[1]. Ela foi depositada pelo próprio Deus no coração humano e o inquieta diante da realidade. Essa inquietação, fruto da percepção de que as coisas no mundo andam fora de lugar, está espalhada em inúmeras manifestações humanas. Na literatura, nos noticiários, nas peças teatrais, na pintura e até mesmo na guerra temos alguns dos receptáculos daquilo que tem incomodado o ser humano em sua jornada pelo caos mundano.
Nesse quadro de inquietações pintado pelo homem diante de sua própria existência, a música parece encontrar um lugar especial. É, talvez, o veículo de maior expressão e análise para diagnosticarmos aquilo que incomoda a alma social do mundo, pois, como bem observou Jesus, “a boca fala do que está cheio o coração”[2]. O próprio Deus, o Pai, também parece reconhecer essa realidade, visto que Ele, por meio do Espírito Santo, preservou nas Escrituras Sagradas do Antigo Testamento uma expressiva quantidade de músicas do povo judeu[3]; canções que, a semelhança daquelas que ouvimos em nossos dias, nos permite observar o coração humano.  
Como temos demonstrado, o coração humano de nossos dias é profundamente inquieto ante o caos interno e externo que se manifesta diante de seus olhos. É bem verdade que o ritmo acelerado com que tem pulsado alguns corações na pós-modernidade parece “demonstrar” certo ar de tranquilidade. Isso, todavia, muda drasticamente à medida que o ritmo da vida diminui e todos percebem que o viver não se limita a correria; o que o sábio descreveu como correr atrás do vento.      
E é quando esse ritmo diminui e o homem percebe que passou boa parte de sua vida correndo atrás do vento que ele abre a sua boca e declara: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”[4]. Esse mundo doente, contudo, como percebemos pelo próprio desenvolvimento dessa canção entoado pelo falecido Renato Russo, é produto humano. Dessa forma, talvez até sem se da conta, nessa canção temos o reconhecimento de que o dano sofrido pela humanidade não é nada mais do que o efeito colateral de suas próprias ações. A Bíblia chama isso de pecado.  
Podemos perceber algo semelhante numa música de Sílvio Brito, bastante conhecida na voz de Raul Seixas; uma das maiores lendas do bom e velho rock nacional. A canção, em tom de desespero, inicia com as seguintes palavras: “Pare o mundo  Que eu quero descer”[5]. O motivo para essa fuga do planeta, segundo o Maluco Beleza, é o seguinte: “Tá tudo errado. Tá tudo errado”[6]. Pois, “Desorientado segue o mundo”[7] e ele, logicamente, como um cara espero, não pode ficar parado[8].
O que há de tão errado no mundo, para que o legendário Raulzito, apossando-se das ideias do Sílvio Brito, tenha desejado sair desse mundo às pressas? Ou, para usar a linguagem do profeta Jeremias: “Por que, pois, se queixa o homem vivente?”[9] A leitura de Raul é a seguinte: o mundo é um lugar de conflitos raciais que no fundo não passa de briga entre irmãos; de intensa burocracia que dificulta a vida das pessoas simples, de múltiplos e frequentes mecanismos de exploração, de acelerado processo de destruição da natureza, de sonhos não realizados, de sofrimento ininterrupto, de insensibilidade para com aqueles que sofrem, de pessoas que andam sem rumo e tantos outros males.
Esse quadro caótico pintado na canção entoado por Raul Seixas, a semelhança do mundo doente descrito na canção de Renato Russo, é também uma construção humana. Isto é, o mundo descrito por Raul como um mundo todo errado é, podemos assim dizer, obra de nossas mãos. De que, então, se queixa o velho Raul? Jeremias, alguém também familiarizado com a poesia, certamente lhe diria: Queixe-se Raul de seus próprios pecados[10].
Isso equivale a dizer que aquilo que chamamos de homem pós-moderno não é muito diferente do primeiro homem pecador, Adão: alguém que consegue até vê o erro, o pecado, a desordem, que está tudo errado, mas, ao mesmo tempo, é tão cego que não reconhece todas essas coisas como obras de suas mãos e, por isso, procura, de alguma forma, fugir do problema. Esse, segundo a literatura bíblica, é um dos principais efeitos do pecado na humanidade.
Percebemos, portanto, que “tá tudo errado” com o mundo, porque “tá tudo errado” com o homem. Essa deveria ser a percepção humana. Essa transposição epistemológica, certamente, faria a musicalidade humana trilhar novos caminhos, enxergar novos horizontes, limpar as janelas de sua alma, desembaçar as lentes de seus óculos e tecer novos versos; uma canção de arrependimento, mas ao mesmo tempo de libertação:   
    
Oh ! tão cego eu andei, e perdido vaguei,
Longe, longe do meu Salvador.
Mas da glória desceu e seu sangue verteu 
Prá salvar um tão pobre pecador”[11]
________________
[1] Eclesiastes 3:11.
[2] Mateus 12:34.
[3] O livro dos Salmos é pode ser definido como uma coleção de canções;
[4]Índios, composição de Renato Russo. Disponível em <http://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/indios.html>. Acesso em 06 Mar 2014.
[5]Pare o mundo que eu quero descer, composição de Sergio Brito. 
[6] Idem
[7] Idem
[8] Idem
[9] Lamentações 3:39ª.
[10] Lamentações 3:39b.
[11] Hino 396 do Cantor Cristão.

Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco
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