sábado, 18 de janeiro de 2014

Um recado para Arquipo.


Na província da Ásia, na região onde se localiza atualmente a Turquia, no vale do rio Licos, existia uma cidade chamada Colossos. Nessa pequena cidade de nome estranho – mostruosidade - havia uma pequena igreja composta, em sua grande maioria, de crentes de origem gentílica. Não sabemos ao certo como essa igreja veio a surgir, mas, se tomarmos como referência a carta do apóstolo Paulo endereçada a essa igreja, somos levados a crer que essa comunidade fora fruto do trabalho de um homem chamado Epafras. Ele, segundo o apóstolo Paulo, fora o instrumento utilizado por Deus para instruir na fé cristã aquelas pessoas que constituíam a igreja em Colossos[1].

Segundo Epafras, conforme relatório apresentado ao apóstolo Paulo, a igreja em Colossos era um ótimo exemplo de exercício no amor cristão[2]. Todavia, era também uma igreja que muita preocupação trazia ao seu pastor[3]. Assim, somos levados ao seguinte questionamento: de onde viam as coisas que, na visão de Epafras, tanto ameaçava a igreja em Colossos?

De acordo com Paulo, o que certamente tomou conhecimento por meio do relatório de Epafras, havia na igreja de Colossos pessoas - muito provavelmente “cristãos” ligados ao judaísmo e a uma forma incipiente de gnosticimo - que tentavam desviar essa igreja do caminho da verdade. Em termos gerais, podemos dizer que esses falsos irmãos, por meio de seus ensinamentos heréticos, negavam a suficiência de Cristo Jesus para a salvação dos crentes de Colossos.

Assim Paulo orienta aos crentes dessa igreja para não se deixarem enganar por ninguém “com raciocínios falazes”[4]; para que tomem todo o cuidado para “que ninguém [os] venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo”[5]; para que não se deixem julgar por quem quer que seja “por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo”[6] e, finalmente, para que também não deixem que “Ninguém se faça árbitro contra [eles], pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado, sem motivo algum, na sua mente carnal, e não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus”[7].

Com o mesmo intuito de desviar os crentes de Colossos dos ensinos dos falsos mestres que rodeavam essa igreja e também com o propósito de levá-los a uma melhor compreensão do ministério de Deus, Cristo, o apóstolo Paulo faz em sua carta endereçada a esses irmãos uma profunda reflexão sobre a pessoa e a obra de Cristo.

Ele, segundo Paulo, nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor[8]; Nele temos a redenção, a remissão dos pecados[9]; Nele esta a imagem do Deus invisível[10]; tudo foi criado por meio Dele e para Ele[11]; Ele é antes de todas as coisas e Nele tudo subsiste[12]; Ele é a cabeça da igreja[13] e a esperança da glória[14] e Nele somos circuncidados, sepultados mediante o batismo, e ressuscitados para uma nova vida[15].

Dessa forma, Paulo demonstra para a igreja de Colossos que não existe nenhum fundamento na argumentação daqueles que negam a suficiência de Cristo.  

É interessante, contudo, observarmos que em meio a todo esse grande problema enfrentado pela igreja de Colossos, havia uma pessoa que parecia não ver nada do que estava acontecendo: Arquipo.

Alguns comentaristas defendem que Arquipo pastoreava a igreja de Colossos ao lado de Epafras, que na ocasião da escrita da carta aos colossenses encontrava-se junto ao apóstolo Paulo em Roma[16]. Essa ideia, ainda que não possa ser plenamente confirmada, parece encontrar amparo no testemunho interno da própria carta aos colossenses, visto que nesse documento Arquipo é apresentado como alguém que havia recebido um ministério, bem como pelo testemunho interno da carta à Filemom, onde Arquipo é descrito por Paulo como um companheiro de lutas[17].   

Concluímos, portanto, a partir dessas declarações, que Arquipo, ainda que não fosse o pastor da igreja em Colossos, era alguém que possuía uma posição de importância nessa igreja e até mesmo nas igrejas localizadas na região do rio Licos como Laudicéia e Hierápolis.

Esse destacado líder da igreja primitiva, contudo, como podemos depreender das palavras do apóstolo Paulo a ele especificamente endereçada, era alguém que estava precisando de uma exortação, de um conselho. E esse conselho vem a sua vida por meio de um recado do apóstolo Paulo.    

O que o apóstolo Paulo manda lhe dizer?  Qual é o seu recado para Arquipo? Primeiro, que estivesse atento para o ministério que ele havia recebido. Noutras palavras, o recado de Paulo é para que Arquipo, literalmente, estivesse com os olhos bem abertos para o serviço que fora colocado em suas mãos.  

Isso não quer dizer necessariamente que Arquipo estivesse cometendo ativamente algum erro ou que estivesse passivamente negligenciado o seu ministério, o que também não podemos deixar de considerar. Mas que ele abrisse bem os seus olhos, pois, como vimos, a igreja de Colossos estava enfrentando algumas dificuldades e era preciso, naquela situação, está atento, vigilante.

De modo prático, somos levados a pensar que Arquipo, de alguma forma, deveria contribuir para confirmar os crentes que estavam aos seus cuidados na fé em Cristo Jesus e combater os lobos vorazes que rodeavam o seu rebanho; aqueles que tentavam desvirtuar as suas ovelhas do verdadeiro Cristianismo.  

Segundo, o recado de Paulo a Arquipo é para que o mesmo não perdesse de vista que o ministério ou serviço que ele tinha em suas mãos ele havia recebido no Senhor. A ideia aqui colocada pelo apóstolo Paulo, como ele também destaca no próprio corpo de sua carta aos colossenses, é que Arquipo não estava trabalhando para homens, mas para Deus. E esse Deus não era uma pessoa qualquer, mas justamente o dono de sua vida. 

Essa, sem dúvida, deveria ser a visão de todo o cristão, haja vista, como colocou o apóstolo Paulo, tudo o que fizermos, seja em palavra, seja em ação, devemos fazer em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai[18]. Não obstante, essa deve ser a marca do ministro por excelência, haja vista que o ministro deve ser o exemplo para o rebanho como entende o apóstolo Paulo e fica evidente no chamado que faz aos seus ouvintes para imitá-lo justamente na medida em que ele é um imitador de Cristo. Ou seja, um exemplo de servo.

Saber que estava trabalhando para Deus deveria está impregnado no coração de Arquipo. Isso confortaria o seu coração e, com certeza, o ajudaria a exercer o seu ministério em meio ao clima turbulento que tentava se instalar na igreja de Colossos.   

Terceiro, o recado de Paulo a Arquipo lembrava a esse ministro de Deus que ele não podia perder de vista o cumprimento da obra que fora colocada em suas mãos. Cumprir aqui é tornar pleno. Assim, Paulo quer dizer a Arquipo, no contexto dessa passagem, que ele precisa trabalhar com bastante atenção para concluir a obra que Deus havia colocado em suas mãos. Nesse sentido, Paulo parece advertir a Arquipo que ele precisa tomar cuidado para que a obra de Deus confiada a ele não viesse a ser prejudicada.

Tomando como referência um o último registro bíblico do apóstolo Paulo, percebemos que esse conselho que o apóstolo traz para Arquipo ele levava também para o seu próprio ministério: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”[19].

Diferentes daqueles que começam bem, mas não terminam bem, como será o caso de Demas, Paulo chama a Arquipo para, a semelhança dele, começar bem e terminar bem. O desejo de Paulo, portanto, é ver o sucesso ministerial de seu companheiro de lutas. Isso que é um grande amigo.

Dessa parte expositiva, podemos tirar algumas importantes lições:        

Primeiro, precisamos de amigos como o apóstolo Paulo; amigos que nos digam a verdade, desejem o nosso sucesso e nos ajudem em nossa caminhada cristã.  

Segundo, o conselho de Paulo a Arquipo bem que poderia ser dirigido a cada um de nós. É bem verdade que estamos muito distante do tempo em essas palavras foram escritas. De igual modo, também é verdade que muitos de nós não exercemos um ministério como o de Arquipo. Todavia, é inegável que muitos de nós precisamos estar mais atentos ao ministério que Deus colocou em nossas mãos. Também é verdade que precisamos a cada dia entender que o nosso trabalho é para o Senhor e que, igualmente, precisamos, como fez Paulo, levar esse trabalho a conclusão.      
_____________________    
[1] Colossenses 1.7.
[2] Colossenses 1.8.
[3] Colossenses 4.13
[4] Colossenses 2.4.
[5] Colossenses 2.8.
[6] Colossenses 2.16,17.
[7] Colossenses 2.18,19.
[8] Colossenses 1.13.
[9]Colossenses 1.14.
[10] Colossenses 1.15.
[11] Colossenses 1.16.
[12] Colossenses 1.17.
[13] Colossenses 1.18.
[14] Colossenses 1.27.
[15] Colossenses 2.11-13.
[16] Filemom 23.
[17] Filemom 2.
[18]Colossenses 3.17.
[19]2 Timóteo 4.7.

Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...