quinta-feira, 17 de abril de 2014

NOSSA CONFESSIONALIDADE



Não são poucos aqueles que defendem que em nossos dias a igreja está enfrentando uma profunda crise de identidade. Para citar apenas um exemplo das vozes que soam nessa direção, destaco o tema escolhido pelos batistas nacionais pernambucanos para a sua 46º assembléia: “Igreja, Identidade e Missão”.

Diante desse tema, proponho os seguintes questionamentos: qual seria a causa da perda de identidade da igreja evangélica brasileira? Qual seria a causa da perda de identidade das igrejas batistas? E, mais especificamente, qual seria a causa da perda de identidade das igrejas batistas nacionais? Embora essas não sejam perguntas de fácil solução, acredito que na raiz da falta de identidade de muitas igrejas batistas nacionais está a perda da confessionalidade.

O que é isso? Isso não significa dizer que alguns crentes batistas nacionais não sejam confessionais, pois, como é de conhecimento geral, todo crente tem um credo, mas destacar que aquilo que muitas vezes confessam os crentes batistas nacionais na atualidade é completamente diferente daquilo que confessaram os batistas nacionais no passado.

Isso nos faz pensar na confessionalidade como “um conjunto de crenças, princípios, símbolos e práticas que se explicitam na vida de uma pessoa ou instituição” [1] os quais lhes foram transmitidos pelos seus pais na fé. A história da igreja parece corroborar com essa ideia quando claramente nos revela que desde muito cedo a igreja de Deus fez questão de preservar formalmente o conteúdo de sua fé por meio de declarações escritas.

Para aqueles batistas nacionais de nossos dias que pensam e defendem com unhas e dentes que a Bíblia e apenas a Bíblia deve ser o único documento escrito aceito pelos batistas, nisso já demonstram o quanto estão desalinhados daquilo que pensaram e defenderam os pioneiros do trabalho batista no Brasil.

É, contudo, esse desprezo para com a confessionalidade formal entre muitos batistas nacionais que tem aberto as portas para perda de identidade entre os batistas em nossos dias, pois permite que cada crente, a despeito da falta de consenso confessional e do despreparo teológico entre os mesmos, tenha liberdade para formular o seu próprio credo.

Isso, por sua vez, parece denunciar que não são poucos os batistas nacionais que tem dificuldade de visualizar a estreita relação estabelecida entre a Escritura e os documentos da Igreja, visto que, infelizmente, ainda não conseguiram entender que a Bíblia não é um livro sistematizado e que o papel de credos, confissões, catecismos e outras declarações que nos legaram os nossos pais na fé tinham o propósito de apresentar aquilo que ensina a Escritura de forma lógica e objetiva.    

Quando uma batista nacional, portanto, despreza a confessionalidade formal que seus pais lhe entregaram deixa de reconhecer que o povo batista nacional é um povo historicamente confessional e, consequentemente, como já observado, perde a sua identidade.

Sendo assim, não temos dúvida que para resgatarmos a identidade batista nacional, precisamos resgatar a nossa confessionalidade. Resta-nos, então, saber: onde está a nossa herança confessional?

A tradição batista nacional, a partir da Escritura Sagrada, manifestou a sua fé ao público interno e externo por meio dos seguintes documentos: 

I – Princípios Batistas:       

Fruto do trabalho de uma comissão de crentes batistas reunidas nos Estados Unidos 1964, esse documento reúne e resume a visão de mundo do povo batista tendo as Escrituras como as suas lentes [2].

A seguir destacamos um quadro geral dessa forma batista de enxergar e se conduzir no mundo: 


II – Declaração de Fé das Igrejas Batistas Nacionais. 

Votada em sua primeira assembleia, a confissão de fé das igrejas batistas nacionais é a mesma confissão adotada pelos pioneiros do trabalho batista no Brasil, com exceção de seu terceiro artigo, o qual fora incluído na declaração original para expressar o entendimento dos batistas nacionais quanto à doutrina do batismo no Espírito Santo [3].
  
A Confissão de Fé de New Hampshire, como era conhecida originalmente a confissão adotada pelos batistas nacionais, fora elaborada “pelo Rev. John Newton Brown (1803 - 1868), no Estado de New Hampshire, por volta de 1833, e publicada por uma comissão da Convenção Batista daquele Estado” [4].

Essa confissão exerceu forte influência nos Estados Unidos e chegou ao Brasil juntamente com os primeiros missionários batistas que aqui chegaram [5] como pode ser verificado na ata de fundação da Primeira Igreja Batista do Brasil em Salvador:      

"Acta Primeira da Secção de Installação da Primeira Igreja Batista na Cidade da Bahia. No dia 15 de Outubro de 1882 da era christã, estando presentes nesta cidade da Bahia, no logar denominado Canella, às 10 horas da manhã os abaixo assinados, membros da Igreja Baptista de Stª. Bárbara, na província de São Paulo, tendo se retirado d´aquela província para esta, uni-rão-se à Igreja Baptista fazendo a sua installação legalmente. São os seguintes: Senhor. Antônio Teixeira de Albuquerque, Z. C. Taylor, Dª. Catharina Taylor, Senºr. W. B. Bagby, Dª. Anna L. Bagby. Depois de installada a Igreja com os cinco Membros supra mencionados, adaptamos unanimemente a "Confissão de Fé" chama-se The New Hampshire! Confissão de Fé, como praticada geral mente pelas Igrejas Baptistas Missionários..." [6].

Nesse importantíssimo documento confessional temos exposto, de forma resumida, o posicionamento doutrinário dos batistas nacionais sobre os principais temais da fé cristã. Costumo dizer que esse é um documento que tem as três importantes características – as quais pretendo abordar num outro artigo de forma mais detalhada – a seguir:

1.      Alinhamento com o Cristianismo histórico;
2.      Cosmovisão calvinista moderada;
3.      Não cessacionismo. 


No quadro a seguir estão os temas tratadas nesse documento [7]: 


III – Pacto das igrejas batistas nacionais

O pacto das igrejas batistas nacionais é um compromisso firmado por todo o povo batista nacional e tem um importante papel na preservação da identidade desse povo. Diga-se de passagem, ninguém é obrigado a ser um crente batista nacional, contudo, todo aquele que por livre iniciativa decidir fazer parte dessa família batista deve ser levado a observar esse pacto.

Nele o crente batista assume o compromisso de fazer da Bíblia a sua única regra de fé e prática, de aceitar a confissão de fé das igrejas batistas nacionais como uma expressão fiel das verdades contidas na Escritura Sagrada e de dirigir a sua vida com base nos princípios defendidos e observados historicamente por todos os batistas [8].

Lamentavelmente temos vivido um tempo onde esse pacto não tem sido honrado e as consequências disso são drásticas: perda da confessionalidade e da identidade. O resgate da identidade batista nacional, portanto, não deve ser entendido como um criativo programa eclesiástico elaborado por um brilhante grupo de trabalho de uma de nossas igrejas ou mesmo pela cúpula de nossa convenção, mas, antes de tudo, como um processo de retorno a fé que nos deixaram os nossos pais. Um caminho diferente desse que estamos propondo para reedificar a identidade batista nacional é tentar reconstruir a nossa história sem as suas bases de sustentação.   

____________          
[1]O que é confessionalidade? Disponível em http://pulpitoreformado.blogspot.com.br/2014/01/o-que-e-confessionalidade.html.   Acesso em: Abril/2014.
[2] Manual Básico Batista Nacional e Manual da ORMIBAN, p. 9-20.
[3] Tognini, Enéas. Eclesiologia: A doutrina da igreja, p. 147.
[4]Confissões de fé na história batista. Disponível em http://www.monergismo.com/textos/credos/new.htm.  Acesso em: Abril/2014.
[5] Idem.
[6] (OLIVEIRA, Betty Antunes de. Centelha em Restolho Seco. 2ª ed., São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 282-83).
[7] Manual Básico Batista Nacional e Manual da ORMIBAN, p. 21-26.
[8] Ibidem, p. 33-34.

Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco 

terça-feira, 15 de abril de 2014

COMO SE FAZ TEOLOGIA?


A teologia, como vimos, é a elaboração de um discurso sobre Deus. Observamos que esse discurso é possível porque Deus se auto-revelou e que é nessa auto-revelação de Deus que o discurso sobre Ele deve está fundamentado e revestido de autoridade. Como, todavia, em termos práticos, esse discurso sobre Deus toma uma forma? Para Clodovis Boff, o discurso teológico, deve ser precedido de um encontro pessoal com o próprio Deus, pois entende que o teólogo, antes de falar de Deus, deve falar com Deus [1]. Isso, por sua vez, não faz da elaboração teológica um negócio privado fruto, por exemplo, da mente de alguns seres supostamente iluminados, pois, ainda segundo Boff, a verdadeira teologia está intrinsecamente ligada à igreja em sua busca por compreensão [2]. Visto dessa forma, “O ponto de partida da teologia é a comunidade da fé”[3], ou, como disse James Smart, “A teologia é simplesmente a igreja levando muito a sério o problema de sua própria existência e averiguando determinadamente em que pontos está deixando de ser a Igreja de Deus” [4].

Nesse processo, a igreja do presente não está, ou melhor, não pode está desconectada da igreja do passado, da Tradição, pois “A Tradição representa o legado de nossos antepassados: os Padres e Doutores, os Credos e os Concílios, a Liturgia e o Ensino dos Pastores” [5]. É preciso, no entanto, destacar que a importância da Tradição não reside na Tradição em si, mas na ação do Espírito Santo que atuou no seio da igreja concedendo uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, desempenho do seu serviço e edificação do corpo de Cristo [6]. “Por isso mesmo, para você aprender bem teologia, precisa ouvir a ‘voz dos mestres’, aprender as ‘lições dos clássicos’” [7], sem, contudo, confundir Tradição com tradicionalismo.  


Podemos resumir esse processo no quadro a seguir, o qual nos mostra o discurso teológico como resultado de complexas interações entre as questões levantadas no seio da igreja, a Escritura e a Tradição.  


De acordo com esse quadro, uma boa teologia, na atualidade, deve surgir do diálogo entre a Escritura, a Tradição e as demandas da pós-modernidade. Isso nos permite visualizar o quadro mais detalhado: 


O modo como essas interações ocorrem podem variar. Esses caminhos particulares em busca da elaboração de um discurso teológico podem ser chamados de métodos teológicos. “Como sabemos, existem dois métodos básicos em toda ciência: o método dedutivo e o método indutivo” [8]. O primeiro parte de uma situação geral para uma particular. O segundo parte de uma situação particular para uma geral. A seguir temos dois exemplos que ilustram o emprego desses métodos:

Método dedutivo: 
 “‘Deus é onipotente’ = afirmação geral. Logo, deduzimos que ele pode dar vida, ressuscitar, criar etc.” [9].
           
Método indutivo:

‘Deus pode dar a vida’= afirmação particular. ‘Deus pode criar’ = afirmação particular. ‘Deus pode ressuscitar os mortos’ = afirmação particular. Logo [...] Deus é onipotente” [10].
           
O emprego desses métodos na elaboração do discurso teológico tem como resultado diferentes produtos. Do método dedutivo, temos aquilo que conhecemos como teologia sistemática. Do método indutivo, temos a teologia bíblica. A primeira pode ser definida como um “esboço de conclusões teológicas da Escritura, que nos mostram o que a Bíblia nos ensina como um todo” [11]. A segunda se preocupa em nos informar o que a Bíblia tem a nos dizer em determinado ponto da revelação.

Essas duas formas de abordagem metodológica nos trazem grandes lições: Primeiro, a Bíblia não é um livro sistematizado. Segundo, a Bíblia é muito mais ampla que um sistema em particular. Terceiro, a Bíblia possui diferentes ênfases teológicas. Quarto, a teologia bíblica oferece grande contribuição para o trabalho da teologia sistemática, à medida que lhe oferece ferramentas para que se construa uma visão abrangente da Escritura.          

Essas conclusões nos levam a perceber que a maior parte da teologia brasileira é fruto de interações desequilibradas entre a Escritura, a Tradição e a agenda da pós-modernidade. Pensemos, por exemplo, naquilo que se chama de teologia da prosperidade. Ela surge com o objetivo de suprir as necessidades do homem pós-moderno. Nada mais legítimo! Todavia, essa teologia, submetendo a Escritura e a Tradição à agenda dos nossos dias, despreza a voz de Deus para o homem na atualidade.   

Esse processo pode ser revertido se a Bíblia for lida não apenas com os óculos da pós-modernidade, o terreno onde nos encontramos e que tanto tem influenciado nossa visão sobre a Escritura, mas também com as lentes que nos deixaram os nossos pais na fé.       
             
__________                               
[1]BOFF, Clodovis. Conselhos a um jovem teólogo, p. 79. Disponível em . Acesso Março/2014.
[2] Ibidem, op. cit., p 84.
[3] ROLDAN, Alberto Fernando. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000, p. 39.
[4] SMART, James D. El ministro docente de lá Iglesia. Buenos Aires, Metropress, 1963, p. 40. Apud ROLDAN, Alberto Fernando. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000, p. 39
[5] BOFF, op. cit., p 84.
[6] Efésios 4.11,12.
[7] BOFF, op. cit., p 84.
[8] ROLDAN, op. cit., p. 42.
[9] Ibidem, p. 43.
[10] Idem.
[11] MCGRAW, Ryam. Todo o conselho de Deus. Os Puritanos: 2014, p. 10. 
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