sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A IGREJA EVANGÉLICA E O CAMINHO PARA A REFORMA




A Reforma Protestante fora um movimento de renovação da igreja iniciado por Matinho Lutero em 31 de outubro de 1517. Esse movimento fora responsável, em grande medida, por levar a igreja de volta as suas origens neotestamentárias.
No Brasil estamos experimentando, nos últimos anos, um grande interesse por essa experiência vivida pela igreja cristã no século XVI. Inúmeros eventos são realizados para debater a fé reformada. As editoras evangélicas, seguindo esse mesmo ritmo, tem publicado grande quantidade de material de teor reformado.
Isso tudo que tem acontecido Brasil a fora nos leva a pensar na seguinte direção: Há uma necessidade da igreja evangélica brasileira refletir sobre a Reforma Protestante? É importante esse assunto para a realidade vivida pela igreja no Brasil atualmente? A igreja no Brasil precisa experimentar uma reforma?
Tudo que temos presenciado no Brasil no tocante a igreja evangélica, como bem expõe o pastor Renato Vargens no livro “Reforma Agora - o antídoto para a confusão evangélica no Brasil”, não nos deixa dúvida de que precisamos urgentemente de uma reforma. Todavia, se precisamos de uma reforma em nossas igrejas, qual seria o caminho a ser seguido por nossas igrejas para passarmos por tal experiência?
Como toda a reforma fundamenta-se basicamente nos mesmos elementos, acredito que a história vivida por Josias, rei de Judá por volta do 7° século antes de Cristo, nos ajudará a entender o caminho que precisamos trilhar para experimentarmos uma reforma na igreja evangélica brasileira.
O livro de 2º Reis nos conta que Josias tinha oito anos de idade quando começou a reinar sobre Judá. Ele subiu ao trono porque Amom, seu pai, um dos reis mais ímpios de Judá, fora assassinado por seus próprios servos:

Tinha Amom vinte e dois anos de idade quando começou a reinar, e dois anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Mesulemete, filha de Harus, de Jotbá. E fez o que era mau aos olhos do Senhor, como fizera Manassés, seu pai. Porque andou em todo o caminho em que andara seu pai; e serviu os ídolos, a que seu pai tinha servido, e se inclinou diante deles. Assim deixou ao Senhor Deus de seus pais, e não andou no caminho do Senhor. E os servos de Amom conspiraram contra ele, e mataram o rei em sua casa. Porém o povo da terra feriu a todos os que conspiraram contra o rei Amom; e o povo da terra pôs Josias, seu filho, rei em seu lugar. Quanto ao mais dos atos de Amom, que fez, porventura não está escrito no livro das crônicas dos reis de Judá? E o sepultaram na sua sepultura, no jardim de Uzá; e Josias, seu filho, reinou em seu lugari.

Diferente de seu pai, Josias fora um homem piedoso, o que nos leva a pensar que a sua mãe, Jedida, tenha exercido uma importante influência na formação de seu caráter. A sua piedade parece manifestar-se claramente na sua atitude para com o templo de Jerusalém:
 
Sucedeu que, no ano décimo oitavo do rei Josias, o rei mandou ao escrivão Safã, filho de Azalias, filho de Mesulão, à casa do Senhor, dizendo: Sobe a Hilquias, o sumo sacerdote, para que tome o dinheiro que se trouxe à casa do Senhor, o qual os guardas do umbral da porta ajuntaram do povo, E que o dêem na mão dos que têm cargo da obra, e estão encarregados da casa do Senhor; para que o dêem àqueles que fazem a obra que há na casa do Senhor, para repararem as fendas da casa; Aos carpinteiros, aos edificadores e aos pedreiros; e para comprar madeira e pedras lavradas, para repararem a casa. Porém não se pediu conta do dinheiro que se lhes entregara nas suas mãos, porquanto procediam com fidelidadeii.

Essa reforma na estrutura do templo, levou o sumo sacerdote Hilquias a encontrar, em alguma das dependências da casa do Senhor, o livro da lei que se havia perdido; uma provável cópia dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento ou, no mínimo, do livro de Deuteronômio.
Hilquias, o sumo sacerdote, entregou o livro da lei ao escrivão Safã e este o leu diante do rei Josias. Os versos que seguem retratam a atitude do rei diante da leitura do livro: 
   
Sucedeu, pois, que, ouvindo o rei as palavras do livro da lei, rasgou as suas vestes. E o rei mandou a Hilquias, o sacerdote, a Aicão, filho de Safã, a Acbor, filho de Micaías, a Safã o escrivão e a Asaías, o servo do rei, dizendo: Ide, e consultai o Senhor por mim, pelo povo e por todo o Judá, acerca das palavras deste livro que se achou; porque grande é o furor do Senhor, que se acendeu contra nós; porquanto nossos pais não deram ouvidos às palavras deste livro, para fazerem conforme tudo quanto acerca de nós está escritoiii.

Nessas palavras do rei Josias está registrado o reconhecimento de que o reino de Judá estava precisando experimentar uma reforma. Mas, sobretudo, é nesse evento de confronto com a lei de Deus vivenciado pelo rei Josias, como se pode observar na sequência desse registro histórico, que se dá o desencadear de um processo de reforma espiritual no reino do sul.
Podemos destacar dessa história vivida pelo povo de Deus na antiga aliança alguns importantes elementos inerentes a todo o processo de reforma espiritual tão necessário a vida da igreja evangélica brasileira.       

1. Toda reforma começa com a Escritura.

A palavra de Deus é fundamento para toda e qualquer reforma espiritual na vida de seu povo. A razão para isso pode ser demonstrada com muita clareza por meio de diversas passagens da Escritura, como as destacadas nos exemplos abaixo:

  • A Escritura é perfeita, restaura a alma e dá entendimento aos simples: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices” (Salmo 19:7);
  • A Escritura ilumina a nossa caminhada nesse mundo: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmo 119:105).
  • A Escritura santifica a vida do povo de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17).
  • A Escritura é o instrumento pelo qual o homem de Deus deve moldar a sua vida: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:16-17).
  • A Escritura é o meio pelo qual Deus gera a vida que Cristo Jesus conquistou na cruz do Calvário: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. (Tiago 1:18).
  • A Escritura é como o espelho que denuncia os nossos pecados: “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era” (Tiago 1:22-24)

É por essas e tantas outras razões que o rei Josias, diante das Escrituras, reconhece a necessidade de uma reforma espiritual em Judá. Reconhece, assim, que o seu povo não precisava apenas restaurar o templo físico, mas também o seu próprio relacionamento com Deus e isso só seria possível por meio de um retorna as Escrituras. Justamente por essa razão, antes de tomar qualquer atitude, Josias convida todo o reino de Judá a ouvir a palavra de Deus:

Então o rei ordenou, e todos os anciãos de Judá e de Jerusalém se reuniram a ele. O rei subiu à casa do Senhor, e com ele todos os homens de Judá, e todos os moradores de Jerusalém, os sacerdotes, os profetas e todo o povo, desde o menor até ao maior; e leu aos ouvidos deles todas as palavras do livro da aliança, que se achou na casa do Senhor. E o rei se pôs em pé junto à coluna, e fez a aliança perante o Senhor, para seguirem o Senhor, e guardarem os seus mandamentos, os seus testemunhos e os seus estatutos, com todo o coração e com toda a alma, confirmando as palavras desta aliança, que estavam escritas naquele livro; e todo o povo apoiou esta aliançaiv.

Após a leitura do livro da lei, tendo o povo, desde o maior até o menor, se submetido à palavra de Deus, o rei Josias iniciou em seu reino uma das mais profundas e significativas reformas da história do reino de Judá:

E o rei mandou ao sumo sacerdote Hilquias, aos sacerdotes da segunda ordem, e aos guardas do umbral da porta, que tirassem do templo do Senhor todos os vasos que se tinham feito para Baal, para o bosque e para todo o exército dos céus e os queimou fora de Jerusalém, nos campos de Cedrom e levou as cinzas deles a Betel. Também destituiu os sacerdotes que os reis de Judá estabeleceram para incensarem sobre os altos nas cidades de Judá e ao redor de Jerusalém, como também os que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, e aos planetas, e a todo o exército dos céus. Também tirou da casa do Senhor o ídolo do bosque levando-o para fora de Jerusalém até ao ribeiro de Cedrom, e o queimou junto ao ribeiro de Cedrom, e o desfez em pó, e lançou o seu pó sobre as sepulturas dos filhos do povo. Também derrubou as casas dos sodomitas que estavam na casa do Senhor, em que as mulheres teciam casinhas para o ídolo do bosque. E a todos os sacerdotes trouxe das cidades de Judá, e profanou os altos em que os sacerdotes queimavam incenso, desde Geba até Berseba; e derrubou os altos que estavam às portas, junto à entrada da porta de Josué, o governador da cidade, que estava à esquerda daquele que entrava pela porta da cidade. Mas os sacerdotes dos altos não sacrificavam sobre o altar do Senhor em Jerusalém; porém comiam pães ázimos no meio de seus irmãos. Também profanou a Tofete, que está no vale dos filhos de Hinom, para que ninguém fizesse passar a seu filho, ou sua filha, pelo fogo a Moloque. Também tirou os cavalos que os reis de Judá tinham dedicado ao sol, à entrada da casa do Senhor, perto da câmara de Natã-Meleque, o camareiro, que estava no recinto; e os carros do sol queimou a fogo. Também o rei derrubou os altares que estavam sobre o terraço do cenáculo de Acaz, os quais os reis de Judá tinham feito, como também o rei derrubou os altares que fizera Manassés nos dois átrios da casa do Senhor; e esmiuçados os tirou dali e lançou o pó deles no ribeiro de Cedrom. O rei profanou também os altos que estavam defronte de Jerusalém, à mão direita do monte de Masite, os quais edificara Salomão, rei de Israel, a Astarote, a abominação dos sidônios, e a Quemós, a abominação dos moabitas, e a Milcom, a abominação dos filhos de Amom. Semelhantemente quebrou as estátuas, cortou os bosques e encheu o seu lugar com ossos de homens. E também o altar que estava em Betel, e o alto que fez Jeroboão, filho de Nebate, com que tinha feito Israel pecar, esse altar derrubou juntamente com o alto; queimando o alto, em pó o esmiuçou, e queimou o ídolo do bosque. E, virando-se Josias, viu as sepulturas que estavam ali no monte; e mandou tirar os ossos das sepulturas, e os queimou sobre aquele altar, e assim o profanou, conforme a palavra do Senhor, que profetizara o homem de Deus, quando anunciou estas palavras. Então disse: Que é este monumento que vejo? E os homens da cidade lhe disseram: É a sepultura do homem de Deus que veio de Judá, e anunciou estas coisas que fizeste contra este altar de Betel. E disse: Deixai-o estar; ninguém mexa nos seus ossos. Assim deixaram estar os seus ossos com os ossos do profeta que viera de Samaria. Demais disto também Josias tirou todas as casas dos altos que havia nas cidades de Samaria, e que os reis de Israel tinham feito para provocarem à ira o Senhor; e lhes fez conforme todos os atos que tinha feito em Betel. E sacrificou todos os sacerdotes dos altos, que havia ali, sobre os altares, e queimou ossos humanos sobre eles; depois voltou a Jerusalémv.

 É interessante observamos que, assim como a reforma empreendida por Josias no 7º século antes de Cristo, a Reforma Protestante do século XVI também teve como ponto de partida a Escritura Sagrada. A Bíblia encontrada pelo padre agostiniano Matinho Lutero, perdida em meio ao tradicionalismo da igreja romana, fora resgatada e posta no centro da vida do povo de Deus, como bem retrata o slogan reformado Sala Scriptura. Isso levou a igreja medieval a experimentar profundas e significativas transformações em sua estrutura e a reconduzir a sua trajetória de vida.
Muitos, como o já citado pastor Renato Vargens, afirmam que a igreja brasileira necessidade de uma reforma urgente. Se essa é uma declaração verdadeira, como acredito que seja, devemos nos questionar: Como poderemos experimentar uma reforma? A experiência de Josias, Lutero e tantos outros não nos deixam dúvidas de que o caminho para a igreja brasileira passar por uma reforma começa com uma inteira submissão a Escritura, visto que nele está a vontade de Deus para o seu povo.

2. Toda reforma necessita de arrependimento.

Se a Escritura é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma reforma, o segundo deve ser o arrependimento, isso porque a Escritura, como uma espécie de mapa nos mostra o quanto estamos distantes dos caminhos do Senhor e exige de cada crente uma mudança de vida. Nesse sentido, podemos descrever o arrependimento como o resultado de uma vida impactada pelo poder da verdade.

A reforma desencadeada por Josias tem essa marca do arrependimento. O relato do livro dos Reis nos informa que ele ao ouvir a leitura do livro da lei e perceber que o seu reino estava distante dos caminhos do Senhor rasgou as suas vestes; uma atitude que, nesse contexto, apontava para um coração quebrantado e arrependido diante de Deus.

Essa ideia é confirmada pela resposta que o próprio Deus traz ao rei Josias por intermédio da profetiza Hulda, conforme destacamos no texto abaixo:

Porém ao rei de Judá, que vos enviou a consultar o SENHOR, assim lhe direis: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel, acerca das palavras que ouviste: Porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante o SENHOR, quando ouviste o que falei contra este lugar e contra os seus moradores, que seriam para assolação e para maldição, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o SENHOR. Pelo que, eis que eu te reunirei a teus pais, e tu serás recolhido em paz à tua sepultura, e os teus olhos não verão todo o mal que hei de trazer sobre este lugar. Então, levaram eles ao rei esta respostavi.

Hoje, certamente, a igreja brasileira não precisa rasgar as suas vestes. Todavia, se a mesma deseja trilhar o caminho da reforma, não pode deixar de olhar para Escritura reconhecendo os seus pecados e rasgando o seu coração diante de Deus em sinal de tristeza e arrependimento.

3. Toda reforma exige coragem.

Iniciamos a nossa reflexão destacando que muito se tem falado sobre a necessidade de uma reforma na igreja evangélica brasileira de nossos dias; o que pode levar alguns a pensar que reformar a igreja é algo relativamente fácil. Aqueles, todavia, que venham a encarar a reforma sob essa perspectiva, lamentavelmente, ainda não compreenderam o real significado de uma reforma.
Reformar a igreja não é algo simples; é lutar contra o pecado estruturado na vida da igreja e da sociedade; é embrenhar-se numa luta renhida contra o diabo e o reino das trevas para libertar pessoas e sistemas do poder e influência do deus deste século. Nesse sentido, uma verdadeira reforma só pode ser entendida como uma ação de Deus.
A história, contudo, nos revela que Deus sempre que realizou uma reforma utilizou-se de homens que não se atemorizaram diante dos grandes desafios que a reforma exigia. Esse, por exemplo, fora o caso de Lutero, Zuínglio, Calvino e de tantos outros homens que Deus levantou no século XVI para lutar contra as estruturas pecaminosas da igreja romana e também fora o caso de Josias na reforma que realizou no reino de Judá no século VII a.C..
Josias, especificamente, como muita coragem, teve que enfrentar as estruturas corrompidas de sua época para retirar do templo objetos do culto a Baal; destituir sacerdotes que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, aos planetas, e a todo o exército dos céus; retirar da casa do Senhor o ídolo do bosque; expulsar os sodomitas do templo; impedir sacrifícios humanos, destruir altares e até mesmo condenar pessoas a morte.
Com muita clareza, isso nos ensina que uma reforma na igreja brasileira não é algo que ocorrerá como um truque de mágica, mas algo que se desencadeará quando homens e mulheres, submissos a palavras de Deus e arrependidos de seus pecados, decidirem lutar contra as estruturas pecaminosas que se instalaram na vida da igreja e da sociedade.

Conclusão
Concluo essa reflexão observando que aquilo que chamamos de reforma é o apelido do avivamento. No Brasil, infelizmente, a palavra avivamento ganhou, para não poucas as denominações, a conotação de um evento organizado pela igreja; um culto “especial” onde há, geralmente, muito barulho, mas pouca transformação de vidas. Esse, como destacamos, não é o caminho para que a igreja evangélica brasileira venha a experimentar – usando agora a nossa nova terminologia – um verdadeiro avivamento. Qual seria, então, o caminho? A velha estrata trilhada pelo rei Josias, Lutero, Zuínglio, Calvino e tantos outros homens que Deus levantou para trazer vitalidade para a sua igreja; um caminho de submissão a sua vontande, arrependimento e coragem. 
___________ 
i 2 Reis 21:19-26.
ii 2 Reis 22:3-7.
iii 2 Reis 22:11-13.
iv 2 Reis 23:1-3.
v 2 Reis 23:4-20

vi 2 Reis 22:18-20

Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco

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