terça-feira, 16 de setembro de 2014

O BATISTA E A POLÍTICA


           Tradicionalmente o protestantismo de matriz brasileira rotulou uma grande quantidade de coisas como pertencentes ao reino do capeta. Isso, invariavelmente, contribuiu de forma direta e significativa para o não envolvimento dos evangélicos em inúmeros setores da sociedade como, por exemplo, o cinema, o teatro, a televisão, o ensino superior e a política.
            Esse tipo de postura, contudo, é algo que parece contrariar o evangelho pregado por Cristo Jesus, o qual chamou e chama os seus discípulos e discípulas a se posicionarem neste mundo de podridão e trevas como sal e luz (Mateus 5.13-16) e a fazer do reino e da justiça a prioridade das prioridades de suas existências (Mateus 6.33).   
            Como obedecer a essas palavras de Jesus? Como viver num mundo de podridão como sal? Como se manifestar como luz num mundo de trevas? Como fazer da justiça, num mundo de injustiça, o alvo de nossa existência?
            Como em Jesus não existe uma dicotomia entre o discurso e a prática, o seu próprio exemplo de vida nos ajuda a encontrar respostas para essas questões. Assim, a nossa grande questão passa a ser: Como Jesus viveu? O apóstolo Pedro, uma das testemunhas do ministério de Jesus, nos diz que ele “andou fazendo o bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (Atos 10.38). Noutra passagem, encontramos o evangelista Mateus trazendo um testemunho semelhante sobre Jesus: “percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” (Mateus 9.35).
            A partir do exemplo de vida de Jesus, somos levados a entender que todo o cristão deve viver na prática das boas obras, pois “Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 João 2.6). As Escrituras também nos ensinam que a prática das obras aponta para a obra da salvação operada por Deus em nossas vidas, “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2.10).
            Como a política é algo que faz parte do campo das obras humanas e pode, dependendo de sua natureza boa ou má, abençoar a vida de muitas pessoas, não temos dúvida que um cristão tem o dever de se envolver, de alguma forma, com as questões políticas de seu tempo. E que ao omitir-se ou esquivar-se dessa responsabilidade contribui para pecaminosamente incorre em práticas pecaminosas, pois “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4.17).
            Esse é um tipo de concepção que pode soar um pouco estranho para muitos batistas, visto que essa é uma tradição do protestantismo histórico que defende com pioneirismo a separação entre igreja e Estado. Essa é uma estranheza, contudo, apenas aparente, pois, o que os batistas defenderam com o princípio da separação entre igreja e Estado, diferente dos anabatistas[1], não fora um estilo de vida apolítico, mas uma igreja livre da ingerência do Estado, conforme podemos depreender do trecho do documento Princípios Batistas:   

Tanto a igreja como o Estado são ordenados por Deus e responsáveis perante Ele. Cada um é distinto; cada um tem um propósito divino; nenhum deve transgredir os direitos do outro. Devem permanecer separados, mas igualmente manter a devida relação entre si e para com Deus[2].  
           
            Uma questão de extrema importância para a nossa reflexão que se levanta dessa declaração é a seguinte: Como a igreja pode manter a devida relação com o Estado? Entre tantas relações possíveis, os batistas entendiam que cada cristão tem o dever de “aceitar suas responsabilidades de sustentar o Estado e obedecer ao poder civil, de acordo com os princípios cristãos[3].
            Nessa mesma linha de raciocínio, ao destacar que os batistas são cidadãos de dois mundos – o reino de Deus e o estado político – o entendimento batista é que todo o cristão “Deve mostrar respeito para com aqueles que interpretam a lei, e a põem em vigor, e participar ativamente na vida de sua comunidade, procurando conciliar a vida social, econômica e política com o espírito e princípios cristãos[4].
            A partir dessas declarações, compreendemos que o povo batista entendia que um verdadeiro cristão não devia apenas orar pelas autoridades, mas participar ativamente da vida política de sua comunidade. Em termos práticos, isso significa que a mordomia cristã envolve “responsabilidades como o voto, o pagamento de impostos e o apoio à legislação digna”[5].
            Essa visão batista sobre o papel social de cada crente aponta para a importância política que tem a igreja na sociedade:

A igreja deve ao Estado o reforço moral e espiritual para a lei e a ordem, bem como, a proclamação clara das verdades que fundamentam a justiça e a paz. A igreja tem a responsabilidade, tanto de orar pelo Estado, quanto de declarar o juízo divino em relação ao governo, as responsabilidades de uma cidadania autêntica e consciente, e aos direitos de todas as pessoas[6].

            Noutro parte do documento Princípios Batistas, esse papel político da igreja é destacado de forma ainda mais intensa:   

A igreja e o cristão, individualmente, têm a obrigação de opor-se ao mal e trabalhar para a eliminação de tudo que corrompa e degrade a vida humana. A igreja deve tomar posição definida em relação à justiça e trabalhar fervorosamente pelo respeito mútuo, à fraternidade, à retidão, à paz, em todas as relações entre os homens, raças e nações[7].

            Embora essas sejam marcas distintivas do povo batista ao longo de sua história, o contexto sócio-político brasileiro parece indicar que o povo batista no Brasil, de modo geral, não mais consegue relacionar a fé cristã com a política. O resultado concreto dessa falta de entendimento ou omissão tem se manifestado no desajuste moral e espiritual de nossa sociedade.



[1] Os anabatistas entendem que os cristãos não devem se envolver com o Estado.
[2] Manual Básico Batista Nacional e Manual da ORMIBAN, p. 15.
[3] Ibidem, p. 15.
[4] Ibidem, p. 13.
[5] Ibidem, p. 13.
[6] Ibidem, p. 15.
[7] Ibidem, p. 15,16.

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