terça-feira, 15 de abril de 2014

COMO SE FAZ TEOLOGIA?


A teologia, como vimos, é a elaboração de um discurso sobre Deus. Observamos que esse discurso é possível porque Deus se auto-revelou e que é nessa auto-revelação de Deus que o discurso sobre Ele deve está fundamentado e revestido de autoridade. Como, todavia, em termos práticos, esse discurso sobre Deus toma uma forma? Para Clodovis Boff, o discurso teológico, deve ser precedido de um encontro pessoal com o próprio Deus, pois entende que o teólogo, antes de falar de Deus, deve falar com Deus [1]. Isso, por sua vez, não faz da elaboração teológica um negócio privado fruto, por exemplo, da mente de alguns seres supostamente iluminados, pois, ainda segundo Boff, a verdadeira teologia está intrinsecamente ligada à igreja em sua busca por compreensão [2]. Visto dessa forma, “O ponto de partida da teologia é a comunidade da fé”[3], ou, como disse James Smart, “A teologia é simplesmente a igreja levando muito a sério o problema de sua própria existência e averiguando determinadamente em que pontos está deixando de ser a Igreja de Deus” [4].

Nesse processo, a igreja do presente não está, ou melhor, não pode está desconectada da igreja do passado, da Tradição, pois “A Tradição representa o legado de nossos antepassados: os Padres e Doutores, os Credos e os Concílios, a Liturgia e o Ensino dos Pastores” [5]. É preciso, no entanto, destacar que a importância da Tradição não reside na Tradição em si, mas na ação do Espírito Santo que atuou no seio da igreja concedendo uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, desempenho do seu serviço e edificação do corpo de Cristo [6]. “Por isso mesmo, para você aprender bem teologia, precisa ouvir a ‘voz dos mestres’, aprender as ‘lições dos clássicos’” [7], sem, contudo, confundir Tradição com tradicionalismo.  


Podemos resumir esse processo no quadro a seguir, o qual nos mostra o discurso teológico como resultado de complexas interações entre as questões levantadas no seio da igreja, a Escritura e a Tradição.  


De acordo com esse quadro, uma boa teologia, na atualidade, deve surgir do diálogo entre a Escritura, a Tradição e as demandas da pós-modernidade. Isso nos permite visualizar o quadro mais detalhado: 


O modo como essas interações ocorrem podem variar. Esses caminhos particulares em busca da elaboração de um discurso teológico podem ser chamados de métodos teológicos. “Como sabemos, existem dois métodos básicos em toda ciência: o método dedutivo e o método indutivo” [8]. O primeiro parte de uma situação geral para uma particular. O segundo parte de uma situação particular para uma geral. A seguir temos dois exemplos que ilustram o emprego desses métodos:

Método dedutivo: 
 “‘Deus é onipotente’ = afirmação geral. Logo, deduzimos que ele pode dar vida, ressuscitar, criar etc.” [9].
           
Método indutivo:

‘Deus pode dar a vida’= afirmação particular. ‘Deus pode criar’ = afirmação particular. ‘Deus pode ressuscitar os mortos’ = afirmação particular. Logo [...] Deus é onipotente” [10].
           
O emprego desses métodos na elaboração do discurso teológico tem como resultado diferentes produtos. Do método dedutivo, temos aquilo que conhecemos como teologia sistemática. Do método indutivo, temos a teologia bíblica. A primeira pode ser definida como um “esboço de conclusões teológicas da Escritura, que nos mostram o que a Bíblia nos ensina como um todo” [11]. A segunda se preocupa em nos informar o que a Bíblia tem a nos dizer em determinado ponto da revelação.

Essas duas formas de abordagem metodológica nos trazem grandes lições: Primeiro, a Bíblia não é um livro sistematizado. Segundo, a Bíblia é muito mais ampla que um sistema em particular. Terceiro, a Bíblia possui diferentes ênfases teológicas. Quarto, a teologia bíblica oferece grande contribuição para o trabalho da teologia sistemática, à medida que lhe oferece ferramentas para que se construa uma visão abrangente da Escritura.          

Essas conclusões nos levam a perceber que a maior parte da teologia brasileira é fruto de interações desequilibradas entre a Escritura, a Tradição e a agenda da pós-modernidade. Pensemos, por exemplo, naquilo que se chama de teologia da prosperidade. Ela surge com o objetivo de suprir as necessidades do homem pós-moderno. Nada mais legítimo! Todavia, essa teologia, submetendo a Escritura e a Tradição à agenda dos nossos dias, despreza a voz de Deus para o homem na atualidade.   

Esse processo pode ser revertido se a Bíblia for lida não apenas com os óculos da pós-modernidade, o terreno onde nos encontramos e que tanto tem influenciado nossa visão sobre a Escritura, mas também com as lentes que nos deixaram os nossos pais na fé.       
             
__________                               
[1]BOFF, Clodovis. Conselhos a um jovem teólogo, p. 79. Disponível em . Acesso Março/2014.
[2] Ibidem, op. cit., p 84.
[3] ROLDAN, Alberto Fernando. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000, p. 39.
[4] SMART, James D. El ministro docente de lá Iglesia. Buenos Aires, Metropress, 1963, p. 40. Apud ROLDAN, Alberto Fernando. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000, p. 39
[5] BOFF, op. cit., p 84.
[6] Efésios 4.11,12.
[7] BOFF, op. cit., p 84.
[8] ROLDAN, op. cit., p. 42.
[9] Ibidem, p. 43.
[10] Idem.
[11] MCGRAW, Ryam. Todo o conselho de Deus. Os Puritanos: 2014, p. 10. 

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