sexta-feira, 7 de março de 2014

O QUE É TEOLOGIA?


A teologia durante muitos anos ocupou um lugar de destaque no cenário intelectual, o que permitia que exercesse uma forte influência na sociedade. Podemos observar um exemplo dessa relação entre saber teológico e influência social por meio das primeiras universidades criadas, pois, nitidamente, apresentavam uma estreita ligação entre a igreja, a reflexão teológica e a sociedade. Essa posição de destaque que possuía a teologia, contudo, passou a ser questionada com o advento dos primeiros traços daquilo que ficou conhecido posteriormente como modernidade, de forma que a teologia, no desenrolar desse processo, veio a perder completamente a autoridade que possuía no cenário intelectual e social.             
           
O surgimento da pós-modernidade não conduziu a teologia ao lugar de destaque que antes ocupava, todavia, é importante destacar, que esse novo momento, como havia profetizado alguns pensadores na modernidade, não fechou as portas para a reflexão teológica. O teólogo brasileiro Rubens Alves parece reconhecer essa realidade. Segundo ele, embora a religião [e porque não teologia] não transite mais nos lugares que antes lhe pertenciam, Ela [a religião, e porque não a teologia] permanece e freqüentemente exibe uma vitalidade que se julgava extinta”[1].

Essa observação de Rubens Alves nos faz perceber que a reflexão teológica continua a ocupar um lugar de elevada importância em nossos dias, o que se alinha com uma simples observação da realidade religiosa brasileira. O teólogo católico Clodovis Boff, observando essa realidade, destaca que existe “pelo menos cinco instâncias diferentes que solicitam o estudo da teologia: a fé, o mundo, a vida a época de hoje e a realidade social”[2].

Diante dessa necessidade de fazermos em nossos dias uma reflexão teológica, nos deparamos com uma pergunta introdutória: O que é teologia? Do ponto de vista etimológico a palavra teologia, formada pela junção de duas palavras de origem grega, θεóς + λóγος, significa, literalmente, estudo sobre Deus ou, num sentido mais exato, palavra sobre Deus[3].

Essa palavra fora cunhada originalmente pelos gregos para descrever o discurso que os poetas haviam elaborado sobre os deuses pagãos. Por isso homens como Orfeu e Homero foram chamados de teólogos. A igreja cristã, embora não tenha cunhado o termo teologia, apropriou-se do mesmo ao fazer da teologia a tarefa fundamental da igreja[4]. Dessa forma, podemos encontrar na elaboração teológica da igreja um grande número de definições da palavra teologia. Abaixo destacamos algumas dessas definições:

            “A ciência de Deus segundo ele se revelou em sua Palavra” [5].   

            “A apresentação dos fatos da Escritura, em sua ordem e relação próprias” [6].

            “A interpretação metódica dos conteúdos da fé cristã” [7].

Dogmática é a ciência na qual a igreja, segundo o estado atual do seu conhecimento, expõe o conteúdo da sua mensagem, criticamente, isto é, avaliando-o por meio das  Sagradas Escrituras e guiando-se por seus escritos confessionais” [8].
           
Essas definições nos fazem observar a atividade teológica como algo que possui diferentes ênfases - ciência, método, Escritura, tradição, conteúdo da fé, e assim por diante - e abrangência, o que nos permite conceber, em certo sentido, cada crente como um teólogo. Entretanto, em meio a essas definições, nos deparamos com o importante questionamento: É possível fazer teologia? Ou, noutras palavras, é possível ao homem elaborar um discurso sobre Deus? Tomando como referência o abismo existente entre Deus e o homem, podemos dizer que a atividade teológica é algo impossível ao homem.

Como, então, a teologia se tornou algo possível ao homem? Podemos responder essa pergunta destacando três importantes realidades [6]:

A.      Deus se revelou;
B.      O homem foi criado à imagem de Deus e por isso está habilitado a compreender a revelação de Deus;
C.      O Espírito Santo ilumina a mente humana para que esse venha a entender a revelação especial de Deus.
                     
Sem a auto-revelação de Deus a teologia seria, portanto, algo impossível ao homem. Ou seja, ao homem seria impossível elaborar um discurso sobre Deus. Sem a ação iluminadora do Espírito Santo, certamente, teríamos uma teologia deficiente, incompleta – como vemos entre os pagãos. Disto concluirmos que o discurso teológico elaborado pela igreja não pode ser independente, do tipo eu acho ou eu penso, mas um discurso que “provem” do próprio Deus. É nesse sentido que a igreja em nossos dias é voz profética para a nossa nação. Contudo, quando a igreja abandona a revelação, consequentemente, deixa de falar para o mundo sobre Deus de forma legítima e, como o sal sem sabor, perde a sua funcionalidade.
            
Essa abordagem nos permite chegar a outra importante conclusão: a autoridade de nossa reflexão teológica deve está fundamentada na Bíblia, pois nela temos a auto-revelação de Deus ao homem, o qual deve considerá-la como sua regra de fé e prática por excelência. Muitos demonstram ter um entendimento equivocada sobre o ensino a respeito da autoridade da Escritura, seja por desprezarem a própria Bíblia em detrimento de suas ideias pessoais ou por desprezarem a autoridade dos credos e confissões que nos legaram a tradição da igreja. É importante destacar, especialmente quanto a esse último tipo de atitude, que ter a Bíblia como regra de fé e prática por excelência não é tê-la como única fonte de autoridade, mas como fonte de autoridade suprema para a nossa elaboração teológica onde a própria tradição deve apoiar-se para encontrar legitimidade.
           
     
___________                             
[1] ALVES, Rubem. O que é a religião? Editora Brasiliense, São Paulo, 14ª edição, 1991, p. 9.
[2]BOFF, Clodovis. Conselhos a um jovem teólogo, p.78. Disponível em . Acesso em: 08 Março 2014.
[3] Ibidem, 79.
[4] ROLDAN, Alberto Fernando. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000, p. 23,24.
[5] KEVAN, Ernest. Apud ROLDAN, 2000, p. 24.
[6] HORGE, Charle. Apud ROLDAN, 2000, p. 24.
[7] TILLICH, Paul. Apud ROLDAN, 2000, p. 24.
[8] BARTH, Karl. Apud ROLDAN, 2000, p. 25.
[9] Ibidem, p. 27-30.

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