segunda-feira, 17 de março de 2014

A FORMAÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO


Na última seção, vimos que Deus se revelou ao homem muitas vezes e de várias maneiras. A despeito dessa enorme quantidade e diversidade de formas de revelação entre Deus e o homem, vimos também, que é na Bíblia que se encontra a revelação divina por excelência. Isso nos leva a declarar que é num conjunto de livros que temos o registro definitivo e autorizado sobre Deus [1]. Diante disso, nos vem à mente uma importante questão: Como esse conjunto de textos nascera e viera a receber o status de Escritura Sagrada? O pastor Valtair Miranda, sintetizou esse processo em quatro passos [2]:

1.   A revelação de Deus é dada a alguém. Isso marca o início da relação entre Deus e o homem. Na Bíblia há o registro de um grande número de pessoas que tiveram um encontro pessoal com Deus. Abraão, Isaque, Jacó, José e Moisés são alguns exemplos de pessoas para quem Deus se revelou.
2. A revelação é compartilhada. Aqueles que desfrutaram de uma experiência com Deus passaram a compartilhar as suas experiências, levando, dessa forma, outras pessoas a experimentarem a mesma percepção de Deus que haviam experimentado. A forma como essas experiências eram partilhadas variavam muito. Uns faziam isso por meio de parábolas, outros através de profecias ou mesmo por meio de uma instrução normativa. Esse processo ficou conhecido como inspiração.
3. O registro. As experiências compartilhadas, à medida que formam transmitidas e despertaram novas experiências com o sagrado, ganharam autoridade. Nesse processo, nasceram os livros, isto é, o registro da revelação de Deus ao seu povo. Em alguns casos esse registro era feito pela mesma pessoa que havia recebido a revelação, mas o mais comum era esse registro ser antecedido por um longo período de tradição oral.   
4.   O reconhecimento. Os livros que registravam a revelação de Deus não eram obras quaisquer, mas livros revestidos de autoridade no seio das comunidades do povo de Deus. Isso equivale a dizer que o povo de Deus recebera e reconhecera esses registros como Palavra de Deus. A canonização, dessa forma, nada mais é do que o processo pelo qual os livros reconhecidos são separados dos livros comuns.
Como bem observou o pastor Valtair, “a impressão geral ao acompanhar esse processo é que os livros não ganharam autoridade ao entrar no cânon. Ao contrário, só entraram porque os fieis os reconheceram como tendo autoridade do próprio Deus de Israel” [3].

Essa brilhante observação do pastor Valtair dirige o nosso olhar em duas importantes direções. Primeiro, ela nos faz ver que a revelação de Deus não foi dada de uma única vez. Isso significa dizer que “Nenhum dos autores da Bíblia recebeu toda a revelação” [4]. Segundo, ela nos permite visualizar a porta aberta para um novo debate: Quando e como esse processo foi encerrado? De modo mais específico, quando e como o cânon do Antigo Testamento foi concluído? 

Embora existam muitas especulações sobre esse assunto, a verdade é que não sabemos exatamente quando se deu o fechamento do cânon veterotestamentário. No entanto, quando lemos o Novo Testamento, somos levados a crer que por volta do século primeiro esse já era um assunto praticamente encerrado. Na relação de Jesus com os líderes religiosos daqueles dias, por exemplo, não vemos um debate em torno da extensão da Escritura, o que nos leva a depreender que isso não era um problema. A grande questão entre Jesus e esses líderes, por outro lado, era a forma como eles interpretavam e aplicavam a Palavra de Deus.

Outro exemplo de que já no primeiro século existia um conjunto de livros reconhecidos, tanto pela comunidade judaica quanto pela igreja como Escritura Sagrada, se depreende da forma como a igreja pregou o evangelho para as comunidades Judaicas do primeiro século.

Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio” [5].
                       
Aqui vemos claramente que Paulo usava um conjunto de livros investidos de autoridade para expor a mensagem do evangelho de Cristo Jesus. Esse também era o caso de Apolo, “um judeu, natural de Alexandria, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras” [6] que “com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus” [7].        

Esses exemplos, associados a muitos outros existentes no Novo Testamento, nos revelam, como já citado, que no século primeiro já havia um conjunto de livros reconhecidos como Escritura. Essa, contudo, não é a única informação que podemos extrair da literatura neotestamentária, pois, nas palavras de Jesus, que encontram eco na tradição judaica de seu tempo, temos a oportunidade de dar mais um passo no tratamento dessa importante questão: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” [8].

Nessas palavras de Jesus, não temos apenas o reconhecimento de que existia em seus dias um cânon do Antigo Testamento, mas também a indicação de que esses livros estavam organizados em unidades temáticas: Lei, Profetas e Salmos. Essa estrutura tripartida das Escrituras do povo judeu é também reconhecida pelo grande historiador judeu, do final do primeiro século, Flávio Josefo [9]. 

Isso nos faz pensar que o fechamento do cânon do Antigo Testamento deve ter ocorrido antes do primeiro século. Uma evidência a favor desse posicionamento pode ser extraída do prefácio da tradução, para a língua grega, do livro apócrifo de Eclesiástico datado de 132 a.C [10]. Esse prefácio fora redigido pelo neto do autor de Eclesiástico e traz a seguinte informação: “o que foi expresso originalmente em hebraico não tem exatamente o mesmo sentido quando traduzido para outra língua. Não somente nesta obra, mas até mesmo a lei, as profecias e o restante dos livros diferem bastante do que foi originalmente expresso” [11].    

Esta declaração, além de nos remeter para a existência de uma tradução do Antigo Testamento para a língua grega, nos ajuda, como já citado, a sustentar que o fechamento do cânon hebraico se deu antes do primeiro século, o que, segundo pensamos, parece se ajustar a tradição judaica que defende o desenvolvimento do cânon em três etapas sucessivas, com o fechamento do mesmo em meados do século II a.C.. Segundo esse raciocínio, o processo de canonização da Bíblia hebraica é datado da seguinte forma: “a Tora, por volta do século V a.C; a coleção dos Nevyim [...], no ano 200 a.C.; os Ketuvim ou hagiógrafos, na época dos Macabeus, em meados do século II a.C.” [12].    

O resultado desse processo, ainda segundo essa tradição judaica, seria o seguinte:   
          


Esse quadro nos permite fazer duas importantes observações. A primeira delas é que a estrutura tripartida assim como a própria organização dos livros na Bíblia hebraica difere da estrutura e organização dos mesmos livros no Antigo Testamento cristão. Isto, como veremos, está diretamente relacionado ao caminho feito pelas Escrituras do Judaísmo em direção ao Cristianismo. A segunda observação - essa mais importante para o desenvolvimento da reflexão que estamos fazendo no momento – pode ser feita por meio da seguinte pergunta: Quais os critérios utilizados para o fechamento do cânon da Bíblia hebraica?

Embora estudiosos tenham argumentado contra a legitimidade de alguns desses critérios, é comum encontrarmos nos manuais de teologia os seguintes:


  1. A lingua: os livros do Antigo Testamento encontra-se, em sua grande maioria, escritos em hebraico;
  2. Antiguidade: os escritos deveriam pertencer a um determinado período histórico;
  3. A autoridade profética: a mensagem de cada autor do Antigo Testamento foi recebida como Palavra de Deus;
  4. Ortodoxia: o conteúdo de cada obra deveria esta em harmonia com o todo;  
  5. Canonicidade: a obra deveria desfrutar amplo reconhecimento na comunidade;
  6. Uso tradicional: os livros deveriam fazer parte da vida devocional e doutrinária do povo de Deus;
  7. Inspiração: cada mandamento, cada profecia, cada hino de louvor, embora tenha sido mediado pela ação humana, foi, em última análise, fruto da ação de Deus. 
             
Apesar da contestação de alguns estudiosos, de que falamos anteriormente, não podemos deixar de reconhecer que muitos desses critérios podem ser extraídos da estrutura do Antigo Testamento com relativa facilidade. Portanto, é inteiramente coerente com a literatura bíblica reconhecer que o povo de Deus na antiga aliança usou de critérios para fazer diferença entre livros sagrados e livros comuns e, desse modo, veio a estabelecer o cânon sagrado.      

________________
[1] MIRANDA, Valtair. Fundamentos da Teologia Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 12,13.
[2] Ibidem, p. 13, 14.
[3] Ibidem, p. 28.
[4] Ibidem, p. 14.
[5] Atos 17:1-3,
[6] Atos 18:24.
[7] Atos 18:28.
[8] Lucas 24:44.
[9] SOARES, Esequias. Septuaginta: guia histórico e literário. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 27, 28
[10] Ibidem, p. 30.
[11] BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 43.
[12] SOARES, op. cit., p. 30.

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