quinta-feira, 13 de março de 2014

A AUTO-REVELAÇÃO DE DEUS.

           
O pastor e filósofo Ariovaldo Ramos, certa vez, ao ser questionado sobre a razão de sua fé, construiu um argumento interessante para demonstrar que a fé é uma possibilidade da razão, pois, como dissera o pastor e teólogo anglicano Jonh Stott, crer é também pensar. O argumento do pastor Ariovaldo Ramos se desenvolve, aproximadamente, da seguinte forma: Deus existe? Se Deus existe e ele não quer se revelar ao homem nada pode ser feito para conhecermos esse Deus. Contudo, se Deus existe e ele quer ser encontrado e se comunicar com a humanidade, estamos diante de outra importante questão: Teria Deus se revelado em todas as culturas da forma que muitos sugerem hoje ou ele teria escolhido um modo específico para se revelar? Ariovaldo conclui optando pela segunda parte da questão, por entender que a Bíblia Sagrada, a principal revelação de Deus, expõe esse padrão [1].    

Essa posição do Pastor Ariovaldo nos leva na direção de mais uma importante pergunta: Como Deus se revelou?  A teologia divide tradicionalmente a revelação de Deus em dois ramos: revelação geral e revelação especial [2]. Segundo os teólogos Justo González e Zaida Pérez, “O que essa distinção indica é que há certo conhecimento de Deus que é derivado da natureza – tanto humana como física – e certo conhecimento de Deus que nos vem por meio da tradição bíblica, e, em particular, por meio de Jesus Cristo” [3].

De acordo com essa definição, concluirmos que a revelação geral de Deus se dirige a todos os seres humanos, enquanto a revelação especial foi limitada por Deus a algumas pessoas. Esse processo pelo qual Deus se revelou aos seres humanos pode ser resumido da seguinte forma:

Revelação Moral

A antropologia secular tem traçado um perfil multifacetado da natureza humana. O filósofo inglês John Locke, por exemplo, compara o homem a uma tabula rasa. Ele emprega essa metáfora para declarar que todo o ser humano nasce desprovido de qualquer conhecimento. Nessa visão, portanto, o homem é descrito como uma espécie de folha em branco onde todo o processo de apreensão do conhecimento se desenvolverá por meio de suas experiências [4].

Diferente de Lucke, o apóstolo Paulo nos ensina que o homem não nasce desprovido de conhecimento, visto que o próprio Deus implantou em seu coração a sua lei e este reconhece essa norma gravada em seu coração, desde a mais tenra idade, quando procede em conformidade com a mesma [5].    

Revelação natural ou física

Há muitos anos o homem vem formulando uma série de teorias sobre a origem do universo. Para Tales de Mileto, considerado um dos primeiros filósofos da escola pré-socrática, o universo teve origem na água, mais precisamente quando esta entrou em movimento e aos poucos foi dando origem a novas vidas e formas [6]. Diferente de Tales, Empédocles, defendia que o universo tem origem na associação de quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Estes elementos seriam, por natureza, imutáveis e indestrutíveis [7].

Mais recentemente, ouvimos muito falar sobre a teoria do Big Bang. Essa teoria, anunciada em 1948 pelo cientista russo naturalizado americano, George Gamow e, o padre e astrônomo belga, George Lemaitre, advoga que o universo surgira por acaso após uma grande explosão cósmica há 10 ou 20 bilhões de anos [8].   

A visão judaico-cristã defende que a origem do universo não advém de forças impessoais, mas sua origem está fundamentada no próprio Deus, que fez tudo surgir do nada, pela força de sua palavra, e tudo muito bom [9]. De modo santo, sábio e poderoso, ainda segundo essa tradição, é esse mesmo Deus quem preserva e governa todas as coisas que criou [10]. O universo, nesse sentido, guarda aquilo que podemos chamar de as impressões digitais do seu Criador. São essas impressões que a teologia chama de revelação natural.

Nos Salmo 19.1-6, encontramos Davi reconhecendo essa revelação divina:   
           
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor”.

É importante deixar claro, como se pode depreender das concepções sobre a origem do universo destacadas anteriormente, que essa revelação divina pode não ser reconhecida pelo homem. O apóstolo Paulo nos leva a entender que essa disposição humana para negar a revelação de Deus, claramente manifesta na natureza e em sua própria consciência, tem suas raízes na natureza pecaminosa que a humanidade herdou de Adão [11]. Assim é inteiramente compreensível para alguém, por exemplo, “observar a natureza e chegar à conclusão de que é uma ordem cruel na qual o mais forte destrói e explora o mais fraco, as criaturas se caçam e comem umas as outras, e a cada dia aparecem novos microorganismos” ou mesmo, agir em completa insensibilidade à lei de Deus revelada em sua consciência [12].

Isso sugere que para compreendermos adequadamente a revelação natural, precisamos de uma chave hermenêutica. Os judeus, desde muito cedo, compreenderam que essa chave para ver Deus de maneira correta na natureza – tanto física quanto humana – encontra-se na história [13].                       

Revelação histórica

Embora a história seja algo comum a todos os homens, nem todos olharam para a história da mesma forma. Os gregos viram na história uma sucessão infinita de ciclos. Desse modo, aquilo que, por exemplo, está acontecendo hoje é apenas uma repetição daquilo que já ocorreu em algum lugar do passado e um ensaio para uma nova apresentação do mesmo evento no futuro próximo ou distante.          Essa visão apresenta a história como desprovida de qualquer sentido ou finalidade e reduz a vida ao plano das realizações individuais [14].

A semelhança dos gregos, os existencialistas ateus da pós-modernidade negam qualquer sentido à história, visto que, segundo compreendem, a história não passa de uma sucessão de eventos desprovidos de significado [15].     

A Bíblia nos convida a olhar para a história de maneira diferente. Não para observá-la como uma sucessão de eventos desconexos e sem sentido ou mesmo um conjunto de sucessivos ciclos, mas como o meio pelo qual Deus materializa os seus propósitos em todas as coisas que criou. Nesse sentido, o entendimento bíblico é que a história humana está se movendo para um fim estabelecido por Deus [16].

Na história de Israel, essa verdade a respeito da revelação de Deus parece se manifestar com mais clareza, como podemos ver através dos seguintes eventos históricos do povo judeu:    
                         
·         Abraão, Isaque, Jacó, José (Gênesis) e Moisés (Exodo 3.1-6).
·         O êxodo (Êxodo 1-19)
·         Sinai (Êxodo 20)
·         As celebrações e festas de Israel
ü  Páscoa (Êxodo 12)
ü  Pentecostes (Levítico 23)
ü  Tabernáculo (Levítico 23.33-36)
·         As renovações da Aliança
ü  Josué (Josué 24.15)
ü  Ezequias (2 Crônicas 29 a 31)
ü  Josias (2 Cronicas 34 e 35)
·         Os feitos heróicos
ü  Elias e os profetas de Baal (1 Reis 18)
ü  Davi e Golias (1 Samuel 17)
ü  Daniel na cova dos leões (Daniel 6)
·         Os profetas

Há, contudo, aqueles que olham para a história da humanidade e chegam à seguinte conclusão: “Se tudo quanto acontece na história é obra de Deus, devemos concluir que Deus apóia os injustos, os abusadores e os exploradores” [17]. Por isso, como argumenta Gonzélez e Pérez, “para ver Deus na história, da mesma forma que para vê-lo na natureza, precisamos de alguma chave que nos diga onde e como temos de ver Deus atuando” [18].  

A igreja cristã tem entendido que a chave para entendemos a revelação de Deus na história se encontra na pessoa de Jesus Cristo [19].  

A revelação Final:

O nosso tempo tem presenciado uma espécie de despertamento do “fenômeno revelacional”, visto que não são poucos aqueles que dizem ter recebido uma nova visão ou revelação de Deus. A despeito da falta de alinhamento dessas supostas revelações com aquilo que temos registrado na Escritura Sagrada, é importante observar que a Bíblia nos ensina com bastante clareza que a revelação de Deus para a humanidade alcança o seu ponto alto na pessoa e obra de Jesus Cristo:            “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” [20].

Essa revelação de Deus na encarnação de Cristo Jesus, como se depreende da leitura de Hebreus, não pode ser vista como mais uma dentre as tantas revelações, mas como a revelação divina por excelência, visto que, ao assumir a natureza, o Filho transpõe todo abismo intransponível entre Deus e o homem [21].   

Nós cristãos, como o próprio Cristo e seus apóstolos nos ensinaram, entendemos que a revelação do Verbo que se fez carne e habitou entre nós também se encontra preservada nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Por isso, fazemos dessas Escrituras a nossa regra de fé e prática [22].

Encerrar esse percurso com a revelação escrita nos mostra algo extremamente importante sobre à auto-revelação divina: Deus não se deu a conhecer de uma única vez, nem de uma única forma, mas fez isso por meio de uma grande variedade de formas e também por meio de um processo que se estendeu por longos anos. Na Bíblia, como vimos, temos a preservação escrita desse processo revelacional. Ela foi redigida por mais ou menos 40 autores, de uma região específica do planeta terra, num período de aproximadamente 1500 anos. Ao estudá-la, precisamos levar em consideração essa característica particular da revelação divina.

________________
[1] Citado pelo pastor Ed René Kivitz. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=fDegee68f918>. Acesso em 5 Fevereiro 2014. 
[2]GONZÉLEZ, Justo L. & PÉREZ, Zaida M. Introdução à teologia cristã. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 50.
[3] Idem.
[4]FERRARI, Márcio. John Locke. Disponível em <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/john-locke-307434.shtml>. Acesso em: 10 Marco 2014.
[5] Romanos 2.14-15.
[6]FRANCISCO, Lúcio Vieira. Tales de Mileto: Tudo Começa na Água. Disponível em <http://www.brasilescola.com/filosofia/tales-mileto.htm>;. Acesso em 10 Março 2014.
[7] MARTINS, José Alves. Empédocles e as quatro raízes. 
[8] FRANCISCO, Wagner de Cerqueira. Big Bang - A Teoria do Big Bang. 
[9] Pergunta 9. C.f. Catecismo Batista Puritano.
[10]Pergunta 11. C.f.  Catecismo Batista Puritano. 
[11]Romanos 1.18-31.
[12] GONZÉLEZ & PÉREZ, op. cit., p. 51, 52.
[13] Ibidem, p. 52.
[14] HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o futuro. 3ª Edição. São Paulo; Cultura Cristã, p. 34, 35.
[15] Ibidem, p. 35.
[16] Idem.
[17] GONZÉLEZ& PÉREZ, op. cit., p. 55.
[18] Idem.
[19] Ibidem, p. 58.
[20] Hebreus 1.1,2.
[21] GONZÉLEZ & PÉREZ, op. cit., p. 59.
[22] Mateus 22.41-46; Lucas 24.27-44; João 20.30,31; Efésios 2.19-22; 2 Timóteo 3.14-17; 2 Pedro 1.16-21.

Um comentário:

  1. A BOCA FALA DO QUE ESTÁ CHEIO O CORAÇÂO
    (LC.6.45)
    (EC.51.33) Eu abri a minha boca e disse: (IS.66.5) Ouví a palavra do Senhor, vós que a temeis; (IS.30.15) porque assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: (JB.3.27) O homem não pode receber cousa alguma, se do céu não lhe for dada: (LS.7.15) Mas Deus me fez a graça de que eu fale segundo o que sinto, e de que presumisse cousas dignas destas que me são dadas; (EF.3.16) para que, segundo a riqueza da sua sabedoria, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no Homem interior; (2TS.3.2) e para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque a fé não é de todos: (IS.22.4) Portanto digo: (AP.2.7) Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: (AP.13.10) Aqui está a perseverança e a fidelidade dos Santos: (EF.3.8) A mim, o menor de todos os Santos, me foi dada a graça de pregar aos gentios o Evangelho das insondáveis riquezas de Cristo: (LS.6.24) E Eu vos relatarei que cousa é a sabedoria, e qual foi a sua origem; e não vos ocultarei os segredos de Deus;(RM.7.22) porque no tocante ao Homem Interior, tenho prazer na Lei de Deus:
    (JB.14.1) Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim; (LE.12.14) porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más:(RM.9.1) Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: (MT.11.11) Em verdade vos digo: (2.SML.23.2) O Espírito do Senhor fala por meu intermédio, e a sua palavra está na minha língua; (2SML.22.23) porque todos os seus juízos me estão presentes, e dos seus estatutos não me desviei:
    (1CO.9.3) E a minha defesa perante os que me interpelam é esta: (DT.4.20) Como hoje se vê: (EF.4/4/6) Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados, numa só esperança da vossa vocação; há somente um Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus, e Pai de todos, o qual é Senhor de todos, age por meio de todos, e está em todos: (TG.4.12) Há um só legislador e Juiz; (TM.2.5) porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os Homens, Cristo Jesus, Homem:
    (IS.46.5) A quem me comparareis para que Eu seja seu semelhante? (JÓ.6.28) Agora, pois, se sois servidos, olhai para mim e vede que não minto na vossa cara: (JÓ.33.3) As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber: (GL.1.20) Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto; (1PE.2.6) pois isso está na Escritura:





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