segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Por que perdemos a identidade?



O bispo Robinson Cavalcanti escreveu por muitos anos para a revista Ultimato. Recetemente uma série desses artigos foram organizados no pequeno livro: “A igreja evangélica: identidade, unidade e missão”. Em um desses textos, fazendo uma análise da igreja brasileira, o bispo destaca:

As missões protestantes históricas que se estabeleceram no Brasil entre 1855 e 1901 foram todas marcadas por uma identidade evangélica, o que significava um alto grau de consenso teológico, a despeito de diferenças periféricas, como sentido e forma dos sacramentos/ordenanças ou formas de governo eclesiástico”[1].

Isso, como também observado pelo próprio bispo, na prática tinha o seguinte significado:

As igrejas congregacionais, presbiterianas, metodistas, batistas, episcopais e cristãs evangélicas partilhavam de uma herança e de uma teologia em comum; um legado que, vindo da Reforma Protestante do Século 16, incluía traços de puritanismo, pietismo, avivalismo e movimento missionário”[2].

Esse consenso foi mantido entre as igrejas históricas brasileiras por mais de um século”[3]. O bispo associa a perda desse consenso entre as igrejas brasileiras ao surgimento do pentecostalismo pré-milenista, pré-tribulacionista e isolacionista a partir de 1910 [4].

Os batistas nacionais em sua última assembleia geral de âmbito nacional, realizada na cidade paulista de Águas de Lindóia, parecem reconhecer que esse processo de perda de identidade que se inciou entre as igrejas evangélicas brasileiras em 1910 tem afetado as igrejas batistas nacionais. Esse reconhecimento se manifesta claramente na atitude dos líderes dessa denominação em trazer para mesa de debate de sua mais importante reunião o mesmo tema debatido pelo bispo Robinson Cavalcanti anos antes: Unidade, Identidade e Missão.

Outro exemplo de que os batistas nacionais reconhecem a necessidade de refletir sobre a sua identidade se manifesta claramente nas palavras do pastor José Carlos da Silva, ex-presidente da Convenção Batista Nacional, publicas no periódico “O Batista Nacional:

Sucessivas ondas de movimentos transconfessionais batem na porta das igrejas. A ênfase nos ministérios de libertação (maldição hereditária e cura interior) na década de 90 foi um desses movimentos que entrou em diversos segmentos e deixou raízes. A fase dos ministérios de família, com seus programas e cursos que servem para qualquer denominação, etc. Mais recente e mais contundente é o movimento das igrejas celulares. Também entrou em diversos setores confessionais, de modo que muitas igrejas locais se definem hoje como batista celular, por exemplo”[5].

Podemos encontrar nessa declaração do pastor José Carlos o reconhecimento de que as igrejas – onde se deve incluir as batistas nacionais – vem sofrendo com a influência daquilo que ele descreveu como movimentos transconfessionais e que esse sofrimento encontra sua materialidade na perda de identidade dessas igrejas.

Diante do reconhecimento dos batistas nacionais de que precisam debater sobre o importante tema destacado acima e na qualidade de membro de uma igreja batista nacional, faço o seguinte questionamento: Por que perdemos a nossa identidade?
 
Antes de debater esse tema, precisamos entender duas coisas. Primeiro, precisamos entender que essa reflexão pode contribuir de forma significativa para o desenvolvimento de nossa comunhão [unidade] e missão. Segundo, precisamos entender que para problemas antigos não precisamos de respostas novas. É nesse sentido que podemos encontrar uma resposta para o nosso questionamento acima. Com isso estou querendo dizer que lidar com as questões de identidade, unidade e missão sempre foi e sempre será um grande desafio para o povo de Deus.

Tomemos como exemplo o povo de Deus no tempo dos juízes. O livro que relata esse período da caminhada do povo de Deus é fechado com as seguintes palavras: “Naquele tempo não havia rei em Israel, e cada um fazia o que lhe parecia melhor”[6].
 
Essa não nos parece uma forma muito interessante de terminar uma história. Certamente, se a Bíblia não fosse um livro inspirado por Deus esse não teria sido o final desse livro. Pois, um autor humana teria retocado esse trecho do texto para deixá-lo mais atraente como, por exemplo, vemos nos finais de filmes que assistimos na “Seção da Tarde”.
 
Mas, como a Bíblia é a palavra de Deus e Ele não encobre o pecado de seus filhos, vemos retratado no último verso do livro de Juízes o estado caótico em que seu povo havia chegado: sem unidade [o rei representava a unidade], sem identidade [cada um fazia o que lhe parecia melhor] e fracasso no desenvolvimento da missão que o próprio Deus havia lhes encarregado.

Esse retrato é bem diferente daquele projetado por Deus ao chamar Abraão da terra de Ur dos Caldeus para fazer dele e de sua descendência uma benção para as nações, como encontramos em Gênesis:

O Senhor disse a Abrão: Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos”[7].

Como podemos explicar essa triste realidade vivida pelo povo de Deus no tempo dos juízes? Como o povo de Deus pode ter chegado a um estado tão caótico como esse? Como entender essa situação que o livro de Juízes nos apresenta?

O próprio livro de Juízes nos ajuda construir uma resposta para esses questionamentos:

Serviu o povo ao SENHOR todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué e que viram todas as grandes obras feitas pelo SENHOR a Israel. Faleceu Josué, filho de Num, servo do SENHOR, com a idade de cento e dez anos; sepultaram-no no limite da sua herança, em Timnate-Heres, na região montanhosa de Efraim, ao norte do monte Gaás. Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o SENHOR, nem tampouco as obras que fizera a Israel”[8].

Nesse texto encontramos a causa do caos que havia se instalado em Israel no tempo dos juízes: um geração que não conhecia o Deus de seus pais e não sabia das suas obras. Para usar uma linguagem moderna, poderíamos dizer que o grande problema de Israel fora abandonar a fé de seus pais para seguir o curso do mundo.

Essa, infelizmente, também tem sido a causa de nossa perda de identidade, falta de unidade e fracasso missionário. A solução para nosso problema, portanto, está no regresso a fé de nossos pais; a antiga confessionalidade que nos deixaram aqueles que trilharam a caminhada cristã com o Deus da aliança muitos anos antes de nós existirmos.

Nesse sentido, o meu pensamento parece alinhar-se com o do pastor José Carlos [o que muito me alegra]:

Na falta de uma boa formação confessional, facilmente penetraram práticas estranhas ao modelo batista: a judaização do culto, a israelatria turística, o movimento neo-apostólico e a teologia da prosperidade diluída em pílulas douradas, para sustentar financeiramente empreendimentos cada vez mais grandiosos e ministérios ególatras (quem tem ouvidos ouça)”.

Gostaria de frisar, todavia, que o que mais me alegra é saber que esse pensamente se alinha com os pensamentos do próprio Deus, como podemos ver claramente nas palavras que traz ao profeta Jeremias:

Assim diz o SENHOR: Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para a vossa alma; mas eles dizem: Não andaremos”.

___________________
[1] CAVALCANTI, Robinson. A igreja evangélica: identidade, unidade e missão”, Viçosa - MG. Ultimato, 2013, p. 8.
[2] Ibidem, p 11.
[3] Ibidem, p 8.
[4] Ibidem, p. 9.
[5] SILVA, José Carlos. Pneumáticos e Psíquicos. O Batista Nacional, Janeiro/Fevereiro/Março/Abril de 2013, p. 2.
[6] Juízes 21.25.
[7] Gênesis 12.1,2.
[8] Juízes 2.7-10.
[9] Jeremias 6.16

Autor: Hebert Leonardo Borges de souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e Licenciado em Física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. 

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